terça-feira, 24 de novembro de 2009

Trriimmm.

Trrrriiiimmmm...

- Oi, minha filha, tá chovendo em São Paulo?

- Hã... não... quer dizer, tá...

- Não acredito que você tá assistindo a novela da Globo!

- Tô só zapeando, mãe...

- Fica aí assistindo a Globo! Ah, não tem jeito mesmo. Os filhos crescem, saem de casa, mudam de cidade e aí já viu. Você não tá assinando de novo aquele jornal que eu me recuso a repetir o nome sujo não, né?

- Hã? Que jornal? A Folha?

- Esse mesmo! Se eu souber que você tá assinando a Folha de São Paulo de novo eu vou aí te pegar pela orelha.

- Pode deixar que eu não tô assinando nada não...

- E tá lendo o quê? Não vai me dizer que você lê as notícias no site da UOL...

- Errr... eu não, de jeito nenhum mãe, pode ficar despreocupada.

- Cambada...

- Tem razão...

- Filha e aquele marxista que você conheceu? Vocês estão namorando?

- Quê? Tá doida?

- Ok. Tô te esperando pra assistir comigo o filme do Lula.

- Fechado.


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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quem tá dentro quer sair, quem tá fora quer entrar.

Enquanto eu fumava um baseado na tão animada área de fumantes da balada com o meu amigo casado que tinha acabado de receber da esposa um "vale-night", lembrei de algumas cenas interessantes da minha vida de mulher comprometida...

1994
Eu toda de preto na minha não tão convencional festa de 15 anos. Beijava o meu namorado apaixonadamente com o telefone do DJ na calcinha.

1999
Um sábado de chuva e eu me escondendo no banco de trás do carro do agora ex-namorado da cena acima. O novo namorado não podia flagar a minha divertida escapada.

2005
Caminho do cinema para o restaurante de mãos dadas. Agora estou num relacionamento sério e pensando em casamento. Mas entre um gole de vinho e outro eu sinto uma saudade tremenda de tomar um ácido, pular a noite inteira e depois ouvir The Smiths no fim da festa sem ter ninguém me esperando em casa.

2009
Caipivodka de morango, The Smiths, calcinha, telefone, diversão. Talvez eu goste mesmo é de ser solteira! E parece que São Paulo é uma cidade bem atraente cheia de opções para mim.

Vale-night forever.
Forever young.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Será que é de éter?

Ele saiu do orkut. Não entrou no facebook. Não tem um blog ou twitter para eu seguir. Mora em outro Estado. Casou. E parece que está evaporando feito éter. Ele tem um email. Tem também telefone. Mas email e telefone se tornaram meios de comunicação tão íntimos que a evaporação continua em ritmo acelerado. No meu coração ele ainda existe em memória viva e consistente, mas será o bastante?

Diante da minha enorme rede me pergunto o quanto é o bastante.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Prezada Síndica do Edifício Estrela

Venho por meio desta fazer mais uma reclamação a respeito da moradora do apartamento 113 deste condomínio.

A moradora, além de ser mais jovem e mais bonita que eu, está feliz com o seu trabalho e carrega dentro de si muitos atributos e talentos. Esta mulher feliz, inconveniente e de bom humor insuportável me incomoda profundamente. Vive sorrindo pelo hall do prédio, conversa alegremente com as pessoas e é adorada pelos porteiros.

Na noite do dia trinta de outubro ela fez uma reunião ruidosa com um belo rapaz. Pude ouvir com nitidez o estouro da rolha de uma garrafa de prosseco, as gargalhadas, a conversa animada e mais tarde os gemidos e as vozes ofegantes.

Gostaria de acrescentar que tenho 53 anos, vivo sozinha há 20 anos e não faço sexo há exatamente duas décadas. Acho um desrespeito esta mulher jovem e bonita transar em cima do meu teto. Acho um absurdo ela existir. E transar. E ser feliz.

Para completar, o meu gato morreu na semana passada e esta mulher odiosa possui dois gatos filhotes de olho azul e pêlo macio de dar inveja a qualquer animal doméstico em uma petshop.

Espero que a senhora tome uma atitude logo, caso contrário eu vou ter que mexer a minha bunda gorda do sofá e arranjar uma vida, o que estou adiando há um século.

Obrigada,

Moradora Infeliz do Apartamento 103.


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sábado, 7 de novembro de 2009

Ah, o verão...


Cores alaranjadas sobrevoam as minhas antenas...



Os gatos brincam mais na janela...


Algumas tardes são dedicadas à leitura...


Alguns estão sentindo pela primeira vez um raio de sol...


Mas o calor de São Paulo conseguiu ultrapassar os níveis poéticos e ele mandou avisar que não sai de dentro do tanque nem por um decreto!


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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Só um choppinho

Não obrigada. Hoje não posso. Quem sabe outro dia?

Eu sei que tá calor, mas não posso mesmo. Não posso porque tudo começa num simples chopp. E quando menos espero já estou metendo a cara nos bolinhos de arroz, no pastel de queijo, aí alguém resolve pedir uma pizza... não dá, não vai dar mesmo. Não vai dar porque depois da quinta tulipa o bagulho desce que nem água e depois de tomar umas desessete tulipas eu vou acordar com o corpo moído e não vou conseguir ir na academia. Sem falar do desejo de coisa junkie que a gente tem no dia seguinte que bebe.

Alô? É, eu disse que não existe só um choppinho. Aceita uma limonada?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Cof cof cof

Outro dia eu consegui me colocar no lugar dos não fumantes. Senti o fedor insuportável que um fumante é capaz de exalar dos poros, da roupa, do hálito. É incrível, mas eu sou fumante e me acho cheirosa e perfumada. Alguns fumantes fedem mesmo, outros não. O que será que diferencia um fumante fedorento de um fumante agradável e charmoso? Eu limpo meus cinzeiros constantemente e uso creme hidratante nas mãos. Não tenho problema de estômago e tomo dois banhos por dia. Será que é isso? Ou será que até o meu olfato é passional?

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Delete

Já escrevi e deletei um monte de merda hoje. Eu sinto falta da catarse que era arrancar as páginas da máquina de escrever, amassar o papel e jogar no chão com raiva. Nesta madrugada eu estaria mergulhada nas bolinhas de papel amassadas. Ainda bem que existe a Eldorado FM, a Nancy Sinatra e o Marlboro Light. Por que eu cansei dos meus mp3s e não consigo mais ouvir a minha playlist "pensando e escrevendo". Vou dormir faminta para acordar com a barriga murcha. Talvez eu consiga captar alguma idéia em cima da bicicleta amanhã. Talvez não. Tá bom, como se uma barrinha de cereal pudesse me ajudar agora! E no congelador só tem uma forma de gelo incompleta. A vodka? Detonei na quinta passada. Por que eu ainda estou digitando este texto? Sei lá! Cada pergunta...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Cabeleireiro e o Editor. A Navalha e o Corte.

Quando eu entro no salão para cortar o meu cabelo eu confio plenamente em quem vai cortar. Sim, eu já me ferrei algumas vezes, mas escolho confiar cegamente sempre, porque só assim eu posso ter a chance de despertar o artista que existe dentro daquele que segura a navalha.

Eu sento na cadeira e passo o briefing. Mostro de forma clara o que eu quero, mas aceito sugestões. Primeiro porque duas mentes pensam melhor do que uma e segundo porque aquele cara está ali todo dia, já viu e experimentou de tudo o que diz respeito a cabelos e o melhor: não tem apego emocional aos meus fios.

Respeito o cabeleireiro e enxergo nele um artista em processo de criação. Acho importante que ele se sinta livre para criar sua obra e também quebrar paradigmas. Eu gosto muito mais quando ele me sugere algo que eu nunca imaginei fazer do que quando faz exatamente o que eu pedi de forma burocrática.

Peço um cafezinho, abro uma revista de fofoca e não me abalo com absolutamente nada. É como se eu não estivesse ali. Sinceramente, nunca entendi o apego daquelas mulheres aos longos cabelos. Aquelas que entram no salão suando, tremendo e imploram para o cara tirar apenas dois dedinhos. Depois elas chegam em casa com a mesma cara e ainda brigam com o namorado porque o coitado não percebeu a diferença de um centímetro e meio.

É preciso passar o comando para o cabeleireiro neste momento. Se ele é um cara que já conheço, eu posso até dormir na cadeira durante o processo! Se é a primeira vez, confesso que reparo uma coisa: a maneira que ele segura a tesoura ou navalha e sua desenvoltura. Não que a habilidade manual e a rapidez sejam essenciais para um resultado satisfatório, mas eles passam confiança. O cara pode ser genial no corte, mas se segurar a minha franja e cortar como mamãe fazia no quintal quando eu era criança eu vou embora. Sim, pode parecer fútil, mas é preciso habilidade nos atalhos, velocidade, um pouco de soberba e um ar de quem sabe o que está fazendo.

Estou falando do cabeleireiro, mas também estou falando do editor de vídeo - aquele cara que vive isolado numa ilha, esperando pela sua confiança e desapego para poder viver mais um dia como artista.



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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mulher, liberte a travesti que existe dentro de você!

Mulheres complexas, temperamentais, dramáticas, que dizem não quando querem dizer sim e choram rios de lágrimas para depois perceber que foi um exagero. Mulheres que fantasiam, idealizam e depois quebram a casa inteira quando a realidade bate na porta. Mulheres que se afogam no brigadeiro de panela em vez de sair por aí satisfazendo as suas fantasias sexuais mais sórdidas... você, que já assistiu todos os filmes da Meg Ryan, que chorou junto com a Drew Barrimore e que acreditou do fundo do coração que a Julia Roberts um dia se casaria com um looser inglês, dono de uma decadente livraria... eu vos digo: amigas, temos muito o que aprender com os travestis!

A grande lição: Esteja sempre montada! É emocionante receber aquela ligação de madrugada com um convite inesperado para o sexo, mas lembre-se de nunca, em hipótese alguma "atender" de camisola, descabelada ou com aquela roupa mambembe que você usa dentro de casa. Nem que seja 3 da manhã, tome uma ducha, passe um delineador, coloque o salto mais alto e uma meia arrastão.

- Nossa, que exagero, o cara não vai ligar pra toda essa produção... Engano seu amiga! As travestis estão SEMPRE montadas, não importa o dia ou a hora. E raciocine comigo: elas são homens que estão no corpo de uma mulher em busca de um homem. E esta imagem da mulher é o que um homem espera de você. Não acredite no papo de que homem não repara a calcinha que você está usando porque o que importa é o que está embaixo. Se você algum dia ouviu isso, provavelmente estava desleixada.

E mona, você precisa estar maravilhosa e poderosa sempre!


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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Os paulistanos são de plástico

São Paulo tem o melhor atendimento. O melhor serviço. As mulheres são estilosas e elegantes com um leve toque blasé. Os homens são altos, sorridentes e simpáticos. Congela a fotografia! Um sorriso de plástico, uma cara saudável maquiada com blush artificial e uma grande bolha de vidro me separa dessas pessoas.

Sei que não é pessoal. Nada aqui é pessoal. Cheguei a conclusão que a qualidade do serviço numa cidade é inversamente proporcional à qualidade humana. Por isso prefiro comer pizza fria com catchup acompanhada de chopp mal tirado e servida por um garçom de péssima educação, porém de carne e osso.

Paranóia?

Toda vez que alguém sorri pra mim, olho em volta procurando as câmeras e espero um texto pronto de merchandising. Eu me sinto dentro do Show de Truman. Ainda bem que fui adotada por dois gatos viralatas.

Continuo dentro do meu apartamento, munida de cigarros, esperando o resgate.

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domingo, 23 de agosto de 2009

Silêncio

Ouço o uivar do vento janela afora. O trotar dos gatos no chão de taco. Um burburinho desinteressante na televisão. O som inconstante das teclas de quem escreve, pausa, escreve, pausa. A janela treme e sossega, fechada, não interfere a cortina. Ouço os passos da vizinha de cima. Alguém deu descarga. De vez em quando o som do elevador subindo e descendo sombrio. A geladeira também dá raros sinais de vida. Alguém se despede na rua e uma moto some no final da curva.

O cinzeiro está cheio. O copo, vazio. O corpo, inquieto. E a mente imagina quanta vida acontece lá fora.

domingo, 19 de julho de 2009

Lembranças da Gaveta - Parte III

A caixa de presente tinha o nome de uma famosa sex shop. Sentiu um pouco de medo de abrir, mas o olhar ansioso da amiga praticamente rasgava o plástico. Escondeu-se atrás do sorrisinho nervoso, aquele que ela ensaiava na foto a fim de forçar uma covinha. Quando abriu, manteve o sorrisinho. Seria piada ou a amiga realmente achava aquela lingerie atraente? Ao perceber que a resposta era a segunda opção, foi forçada a mostrar os dentes num sorriso mais aberto, porém não menos amarelado.

Malditas normas sociais. Malditas expectativas alheias. Normalmente ela diria "que coisa horrível, você espera mesmo que eu use isso ou anteciparam o inimigo oculto de fim de ano?". Mas resolveu não ser muito ela mesma naquela noite, talvez por medo do olhar arregalado e (over) confiante da amiga. Aquele olhar carregava uma certeza assustadora e ela resolveu deixar a moça no lugar de conselheira infalível que havia se colocado.

O seu namoro estava mesmo uma merda e talvez uma calcinha preta com plumas pudesse ajudar. No fundo ela sabia que não queria salvar namoro nenhum e a decisão de usar a calcinha foi um tanto sádica. Queria expor seu namorado à calcinha. Será que ele continuaria a farsa daquele amor que já havia se extinguido por completo e fingiria ter gostado do artifício? Ou cairia numa cruel gargalhada e daria continuidade à guerra silenciosa que se arrastava por infelizes seis meses?

O namorado caiu na gargalhada. Ela poderia ter sido mais sádica ainda se interpretasse o papel da vítima magoada, fazendo o coitado se encher de remorso. Mas gostou da sinceridade dele e o respeitou como há muito tempo não o respeitava. Encerrou finalmente com o sadismo e com as plumas. E ficou livre para fazer uma piadinha com o mau gosto da amiga.

Pegou a calcinha preta de plumas, jogou no lixo e fechou a gaveta, junto com outras lembranças.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Lembranças da Gaveta - Parte II

Era uma daquelas noites infinitas. Madrugada na janela observando o apagar das luzes vizinhas. O relógio marcava três da manhã e ela não se sentiu sozinha em sua insônia. O homem de meia idade jogado no sofá clicando aleatoriamente o controle remoto. A adolescente no celular. A velha senhora nas últimas páginas do livro. O garotão navegando na internet. Um casal trocando beijos no tapete da sala.

Nenhum daqueles quadrados acesos despertava seu interesse. Limitou-se a observar a fumaça do cigarro se perdendo no breu. A lua minguava, mas seu peito permanecia seco e avesso aos dramas alheios. Um vento frio pede para que feche a janela. Teimosa, deixa uma fresta aberta para respirar.

O celular toca.

- Hum hum. Pode vir sim.

Ela nem tinha pedido aquele delivery, mas sabia que uma noite de sexo certamente acabaria com a insônia.

Guardou a camisola fina que já não combinava com o fim do outono, junto com outras lembranças.


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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Lembranças da Gaveta

Enterrou sem pressa os dedos dos pés na areia morna. O som das ondas é sutil e harmonioso. O céu, azul e desprovido de nuvens. Um homem enxuga o suor do rosto e continua gritando ao fundo: biscoito globo, ó o biscoito! Um pássaro surge ligeiro, dá um rasante e segue seu curso. Ela fecha o livro e contempla o horizonte por longos minutos. Abre a bolsa com desenho de flores vermelhas e procura o protetor solar. Abre o frasco e sente o perfume do verão. Pensou em quantos momentos pertencem aquele cheiro característico. Muitos. O creme entra nos poros e os pêlos do corpo bronzeado realçam loiros.

- Moço, me vê um de manga.

Ela bebe um suco que alimenta porque não tem hora pra almoçar. Depois anda tranquila até o mar e dá uns mergulhos. Conversa com Iemanjá e depois fica boiando sem rumo. Na volta da água sente um alívio na alma, fecha os olhos e se entrega para o sol. Sacode os cabelos displicentes, passa os dedos entre os fios e sente aquele geladinho peculiar. Seu corpo está quente, salgado e solto no vento.

Admirou o biquíni e guardou de volta na gaveta, junto com outras lembranças.


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Brincando de Haikai em São Paulo

Brilham antenas
Luzes na janela
Penso no amanhã

Está seco
E na cozinha fria
Jaz um cacto

Chão de taco
Sofá preto
Me aquece um gato

Ladeiras me perseguem
Desde a infância
E eu subo

Taça de vinho
Janelas abertas
Cheiro de livro

Chuva cai
Pego o cobertor
E respiro

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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Chá Mate

Fazia frio e eu desejava algo quente. Menos calórico que um chocolate, menos forte que um café e com presença mais marcante que um simples chá de flores. Chá mate foi a escolha acertada naquela tarde cinza e chuvosa. Há muito tempo não tomava chá mate quente. E o cheirinho característico me fazia lembrar de duas coisas que amo: a praia de Ipanema e a minha falecida vovó.

Vovó adorava mate. Quente, gelado, no verão, no inverno. Na geladeira de sua casa era essencial, assim como a garrafa de água, a jarra de mate. Era o primeiro cheiro que sentia quando abria a geladeira e a primeira opção de acompanhamento em delícias diversas: bolos, biscoitos, doces, tortas.

Sinto saudade da vovó. Uma pena que de herança ela deixou somente este nariz que já detestei mais na adolescência e que hoje estou mais familiarizada, sempre evitando fotos de perfil, é claro. Pensando bem acho que eu herdei mais da vovó que o nariz. Eu herdei independência, disposição pra brigar e o mau humor charmoso, daqueles que você passa a tarde inteira rabujenta reclamando sem parar e faz as pessoas se divertirem. Eu só queria ter herdado um pouco mais de coragem para bater em cachorros furiosos e reagir a assaltos - isso eu definitivamente não herdei da vovó.

O cheiro de mate invadiu a minha sala e as minhas memórias. Lembro de derrubar meu mate no sofá de tanto rir com meu irmão da performance da vovó fazendo a dança do pintinho amarelinho do meio da sala. A festa era só nossa, já que os meus pais já tinham saído com o contrabaixo, a vodca e o chevette. Podíamos tomar mate e comer doces a vontade, além de dormir tarde. As melhores babás são definitivamente as avós!

A vovó sabia que ia partir. E ligava todos os dias para dar boa noite. Acho que ela temia ser a última e não queria ir assim sem dar tchau. Mas ela partiu numa manhã ensolarada, com verde, céu azul e eu em estado de choque contando piadas infames no velório. Mas ela me entende, não tem problema.

O cheiro de mate me trouxe a vovó, mais uma carioca viciada na bebida. O mate carioca é o cafezinho de uma cidade quente. E o meu paraíso particular muitas vezes se apresenta como uma canga colorida forrando a cadeira de praia na areia branca, fina, morna, macia.
O som do mar calmo, verde, transparente, gelado. Um céu azul sem nuvens numa manhã em Ipanema enquanto a praia ainda está abrigando poucas pessoas e o silêncio afaga o som do pensamento. O mate da praia é metade mate, metade suco de limão. Estupidamente gelado para lavar a alma.



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sábado, 27 de junho de 2009

Cat Lover

Eu adoro quando acordo sem certeza de nada. Adoro quando mudo de opinião e não me arrependo. Adoro a capacidade de sermos flexíveis como a água que não tenta vencer a pedra e a contorna sem desistir de chegar onde quer que seja. Eu sinto prazer sempre que sou capaz de destruir o senso comum que existe em mim.

Eu sempre repeti a frase "eu odeio gatos" sem nunca parar para raciocinar o que isso significava. Por que eu odiaria um gato? Não sei, mas percebo que todas as pessoas que nunca conviveram com gatos dizem que não gostam de gatos. Eu não vejo ninguém dizendo que odeia cachorros e olha que cachorros podem morder e os gatos na maioria das vezes são vítimas de experimentos diversos com criancinhas malévolas.

Eu não estou muito preocupada em carregar o estigma da solteirona solitária que acabou sua vida sozinha com vários gatos, um dia morreu, ninguém percebeu e os bichanos comeram todo o seu rosto. Por que hoje está frio, chovendo, eu abri um vinho delicioso enquanto assistia um dvd debaixo do cobertor com duas bolas de pêlo, duas bolas de amor.

Pedrinho e Aretha precisam de mim. Apesar de eu ostentar bastante carne no rosto e no corpo, eles preferem a ração que eu sirvo todos os dias com carinho. E parece que só agora eu percebi que tenho um motivo sério para continuar vivendo por pelo menos mais uns 20 anos.








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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Crise

Prometi a mim mesma que a última parte do meu corpo que sofreria com a crise, seria a bunda. E ontem, pela primeira vez, usei um papel higiênico chamado Flofys. Pela gravidade da situação, neste frio de São Paulo, eu vejo a chuva cair pela janela e sonho com Neve. A pimenta também está temporariamente fora do cardápio.

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Algum boêmio descolado aí já passou pela provação humilhante chamada avaliação física numa academia? Pois ontem eu descobri que sou uma massa gorda flutuando em muitos porcentos de banha. Ainda bem que sou inteligente, bem humorada, simpática e boa de cama. Zzzzzzzz...

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Para completar as curtinhas humilhantes gostaria de acrescentar que durante a minha última sessão de análise percebi que a minha questão principal é uma sinopse amassada e fedorenta de um filme trash de oitava categoria. Minha storyline não vende nem para o sbt. Ao menos o clichê é meu amigo, eu sabia, sempre dei atenção a ele.

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terça-feira, 23 de junho de 2009

Barbas

Repórter: O que a senhorita tem a dizer sobre todas essas barbas que andaram roçando no seu pescoço esta semana?

Senhorita: Sim, eu estou dando mais que chuchu na serra. A diferença é que o chuchu é desonesto e eu sou fiel aos meus hormônios.


Sábado de manhã ela desceu do elevador com aquele de barba não definida, bem mais novo que ela e mochila nas costas. Latinha de coca-cola-cura-ressaca numa mão e o celular na outra. Um resquício de rímel nos cílios denunciava uma noite pesada. Corre, trabalha, almoça com a família e meia-noite tá de volta a tempo de descansar para a balada que começa às 2 da manhã.

Quarta desceu toda perfumada e entrou num taxi com aquele dos cabelos propositalmente despenteados, levemente grisalhos e barba linda e mal feita. Chopp gelado com 2 dedos de colarinho cremoso. Bolinho de arroz. Muitos cigarros no cinzeiro. Tudo por conta daquele canal de televisão que ela adora. Na manhã seguinte, a cena se repete na portaria. Beijo, tchau, não precisa me dar carona, eu vou para o outro lado.

Sexta de madrugada toca o interfone. Um delivery que há tempos não recebia. E os vizinhos esbarraram no elevador com aquele que anda por aí todo estiloso, parecendo um cantor de hip hop com uma barba cheirosa que é boa de puxar. Sábado de manhã o porteiro sorri e ela se despede novamente. Ele sobe a ladeira a pé e ela desce de bicicleta.

A sua avó sempre disse que era uma devassa do raio.
Para alguns é uma libertina.
Para outros, no entanto, é apenas solteira.


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domingo, 31 de maio de 2009

Uma visão otimista sobre a Lei Anti Fumo


A nova lei proíbe cigarro ou derivados de tabaco em ambientes de uso coletivo, públicos ou privado, total ou parcialmente fechados em qualquer um dos lados por parede ou divisória, em todo o Estado. Entre os locais de proibição estão áreas internas de bares e restaurantes, casas noturnas, ambientes de trabalho, táxis e áreas comuns fechadas de condomínios.

Em agosto começa a palhaçada.
Perseguição nazista!
O cigarro foi escolhido como o grande vilão do momento, tudo é culpa dele.

- Cof, cof.
- Essa tosse não foi a chuva que você pegou. Essa tosse é o cigarro.


- Não tá subindo, doutor.
- Você fuma? A impotência nem é o stress no trabalho, é o cigarro mesmo!


- É câncer.
- Sempre disse que você devia parar de fumar. Não é genético e nem a sua alimentação desregrada, é o cigarro com certeza!


- A casa pegou fogo.
- Alguém aqui é fumante? Por que fumantes sempre deixam cigarros acesos por aí, são pessoas perigosas...

- Ele pediu o divórcio.
- Fuuuummaaaaa! Não, claro que ele não tem outra. Agora você fica fumando né? Quer o quê?

- Tirei nota baixa.
- Também, só quer saber de fumar no corredor!



E por aí vai.

O meu maço de cigarros favoritos, marlboro light, está custando quatro reais e cinquenta centavos. Um aumento absurdo! As ilustrações que vêm na caixa são exageradas e abusivas. Acho uma falta de respeito ao meu livre direito de fumar, ter que comprar um maço de cigarros com o desenho de um rato morto ou de um cara sem a perna. Eu peço sempre o da impotência sexual, que óbvio não me afeta ou o da menininha com asma, porque eu não tô nem aí pra ela mesmo, me desculpem.

Me pergunto porque na garrafa da cerveja não tem ilustrações de homens e mulheres com fratura exposta em acidentes de trânsito ou crianças com o rosto deformado de tanto apanhar de um pai alcóolatra.

Me pergunto também porque na embalagem da carne que compramos no supermercado não vem fotos de animais torturados, mutilados, cegos, tratados como objetos. Nesta embalagem podia ter a foto de um porco sendo esfaqueado vivo, gritando e explodindo em sangue. Ou podia ter o retrato de uma criança de rua faminta, que não tem o que comer porque todo o cereal produzido na sua cidade foi usado para alimentar um boi que vai ser morto, torturado e depois vendido por um preço que ela não pode pagar.

E por aí vai.

Deixando a tragédia e a perseguição de lado, vamos para a visão otimista.
Entrando em vigor esta lei idiota, o que vai acontecer? As pessoas vão parar de fumar ou vão criar situações favoráveis e inteligentes para continuarem com o seu vício adorado? Claro que é a segunda opção!

O que me faz feliz em São Paulo hoje, além do Frapuccino do Starbucks, da Livraria Cultura e da paisagem de concreto é a enorme quantidade de fumantes. Ao menos aqui, na minha cidade (olha, já chamo de minha!!!), os lugares de balada já estão providenciando uma mudança em sua estrutura, só para abrigar os fumantes. Existem também as charutarias, que eu nunca fui porque acho que tem cara de lugar de velho rico. Mas acredito que as charutarias vão ser cada vez mais frequentadas por um público jovem e fumante. E o que vai acontecer? Esses lugares vão se transformar em verdadeiros bares de fumantes, onde o não fumante é que atrapalha e está no lugar errado.

Já imagino uma decoração vintage com fotos das grandes estrelas do cinema americano com sua cigarrilha na mão. No som, jazz, soul e muito rock 'n roll. Vou chegar, acender meu marlboro light, pedir um drink e ninguém vai me olhar como se eu fosse uma bruxa que deve ser jogada na fogueira.

Criados estes lugares aconchegantes, livres e estilosos vocês já sabem qual vai ser a tendência, né? Como nós fumantes somos mais charmosos e irreverentes, os não fumantes de bom gosto vão começar a frequentar os bares de fumantes. Pronto. Além de resolver o problema da lei estúpida, fumar volta a ser cool.

Paro de escrever por aqui para beber um capuccino e acender mais um marlboro light, saboreando tudo o que há de delicioso e politicamente incorreto aqui em casa. Pra finalizar então, pau no cu do Hitler, do Stalin, dos senhores de engenho, dos sonegadores de impostos, dos caras de Brasília, dos milionários que vivem cercados de muros e grades cultuando o medo, pau no cu da Globo, pau no cu da Folha de São Paulo, pau no cu da vizinha que reclama do som alto, do chefe que não faz sexo, pau no cu de quem não gosta de gatos e, claro, pau no cu dos não fumantes ativistas.

Ufa.
Aretha e Almodóvar brincam com a fumaça que se espalha tomando formas divertidas no ar.


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sábado, 30 de maio de 2009

O último vício

22 de setembro de 2059.

Hoje completo oitenta anos. Estou aqui distraída olhando as fotografias que tirei por aí, em Sampa, desde 2009. Letícia, minha querida sobrinha foi a primeira a chegar. Olhei para ela com cuidado. Minha menina, já com trinta anos e o mesmo sorriso que carregava no bebê conforto. Minha sobrinha, afilhada, filha emprestada, a garota mais bonita do mundo está agora admirando meu álbum de fotografias e implicando com o meu cigarro. Algumas coisas não mudam nunca.

- Tia, que foto é essa? Que nojo!

- É um açougue, querida.

- Eu sei, eu li sobre isso... é verdade que há cinquenta anos as pessoas matavam os bichos e vendiam a carne assim, pendurada na vitrine pra todo mundo ver?

- Passa o isqueiro, querida.

- Vai acender outro?

- Relaxa que esse é natural...

- Ah, eu comprei um maço de Janis Joplin hoje de manhã e...

- Maço? Querida, olha o que eu ganhei da Bahia...

- Mas como você enrola isso, tia?

A beringela gratinada saiu do forno e senti um aperto no coração. Coloquei a câmera na mão da Letícia e ela conseguiu tirar nosso último retrato. Minutos depois parei de respirar. Mas ela sabia que na terceira gaveta da sala estava o pen drive cor de rosa, com a história da minha não tão surpreendente, mas fascinante vida.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sobre a Desonestidade do Chuchu

Eu acho o chuchu desonesto.
Desonesto, cínico e malandro.
Portanto não confio no chuchu, assim como não confio em quem diz gostar dele.
Existe decepção maior do que morder um chuchu quentinho e macio ao confundi-lo com uma batata e depois ter a desagradável sensação do maldito explodindo em água na boca?
Eu acho um desaforo sem tamanho!
E ainda por cima ainda quer dar uma de fruta.
Alguém aí acredita que o chuchu é uma fruta?
Olha, me desculpem, o tomate eu engulo, mas o chuchu...
Não é fruta nem aqui, nem na China!
Vou até falar mais baixo, para a maçã que repousa ao meu lado não se sentir deslavorizada.
Humpf.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O Gato, o Vidraceiro e o Saquinho de Vômito

Uuuuuugh! Aullllghh. Domingo, 8 da manhã. Já que o tapete dela era macio e a cama de hóspedes estava um pouco longe, decidi dormir o resto da manhã ao lado da privada.

Ela bebeu muito mais que eu! E ela nunca bebe... Foram 4 chopps e uns copinhos de cerveja de garrafa, todos degustados com o estômago muito bem forrado, obrigada. O vidraceiro quis saber se foi algo que eu comi. O mesmo vidraceiro que costuma fazer perguntas inconvenientes pra ela, do tipo "mora sozinha mesmo? não é casada? não tem filhos?" Eu disse a ela que respondesse em tom de choro que foi a única que sobrou do acidente, pronto, calava a boca do sujeito.

Estava deitada ao lado da privada quando ouvi as respostas educadas que ela deu para o vidraceiro. É, existem pessoas melhores que eu no mundo. Pessoas que bebem vários copos de cerveja na noite anterior e acordam às oito da manhã de domingo com sorriso, charme e paciência com vidraceiros curiosos.

Uuuuuugh! Aullllghh. Oh, não! Mais uma vez? Não tem mais nada pra sair. Ai, fudeu, algo quente e amargo se anuncia no fundo da garganta. Odeio vomitar a bile!

O gato me observava de longe. Ele estava realmente muito preocupado, mas foi discreto e elegante, me deixando à vontade. Eu que sempre impliquei com aquele gato, me sensibillizei com o apoio silencioso e não invasivo.

Assim que o vidraceiro saiu, nos despedimos do gato e entramos no carro. Ela me deu um saquinho plástico e tentamos atravessar a poça sem maiores transtornos. Rumo ao almoço familiar de domingo, íamos eu, o saco plástico, ela e a mulher da net que, na outra linha e no gerúndio, a deixava esperando, esperando, esperando.


Uuuuuugh! Aullllghh. Que merda! Saquinho fedorento!

Eu já te dei o número de protocolo cinco vezes, por que você está me transferindo de novo? Alô?

Até que enfim a minha prima perdeu o charme e a simpatia. Finalmente consegui alguém malévolo para me acompanhar nas desgraças mundanas daquele domingo de merda. Eu não conseguia falar nada, mas cada vez que o líquido amarelo e quente explodia pra fora na língua naquele saquinho fedido e cinza eu me sentia solidária com ela e vice versa.

Uuuuuugh! Aullllghh. O meu cpf é 09063... Uuuuuugh! Aullllghh. Eu acho um absurdo isso, um desrespeito! Uuuuuugh! Aullllghh. Minha filha, você ouviu o que eu disse, qual o seu problema? Uuuuuugh! Aullllghh. Uuuuuugh! Aullllghh. Quer saber? Cancela! Cancela tudo! Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh!!!!!!!!! Cancela!

Ela bateu o celular com tanta força que a bateria pulou longe. No mesmo minuto eu abri a janela e coloquei a cabeça pra fora. 3 segundos depois, uma olhou para a outra e era impossível não rir. A cena mais cômica que eu vivi nos últimos domingos.

Então valeu.


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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Atestado de Óbito

É com um certo pesar, porém com uma confiança na inteligência do cosmos que comunico o falecimento da Capeletti. Não se preocupem, ela está bem. Vive agora no mundo fantástico de Alice e Miss Lexotan. Qualquer dia ela baixa em mim aqui no blog, quem sabe num dia frio de inverno, acompanhada de uma taça de vinho tinto. Por enquanto, sigo sozinha comigo mesma, bem vieira, e sem personalidades adicionais. Por enquanto!

Que assim seja.


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terça-feira, 7 de abril de 2009

Escrevi em fevereiro de 2005 e não criei um título

(Organizando os marcadores do meu blog encontrei este texto. Feliz aniversário para a falecida vovó e relembrar é tão bom... brindo o post num copo de vidro com cerveja dentro.)

Era uma vez uma grande família. Tão grande e unida que mais parecia núcleo de novela, onde só existe um médico, um advogado, um fanfarrão e as personagens têm filhos ao mesmo tempo e no embalo dos últimos capítulos. Mas esta é uma pós-novela e tudo começa lá pelas voltas do ano de 1979, onde somente neste ano e pelas contas aqui dos dedos nasceram seis bebezinhos, cada um pertencente a um lugar diferente do Brasil.

Salvador, Ilhéus, Porto Seguro, Itabuna, Niterói, Taubaté.

Mas nas férias todos se reuniam na casa da vovó e do vovô. E lá pelas tantas os netos já somavam treze. Cada um com uma caneca de plástico com o nome gravado e uma espécie de bacia de metal, que chamavam de prato. E só depois de comer todo o conteúdo da bacia, podíamos matar a sede com suco de cacau trazido da roça.

Com olhinhos pequenos e sonhos grandes eu almejava o dia em que iria transpor barreiras e comer em pratos de vidro, talheres grandes, comeria feijão com farinha e pimenta e aquelas moquecas amareladas de dendê, que não faziam bem para as crianças. Entre um bife cortadinho com arroz e suquinho na canequinha eu sonhava em beber cerveja em copo de vidro de molho de tomate! E ficar bêbada quando quisesse e até tarde da noite, relembrando velhos tempos e celebrando conquistas.

Titia e titio eram felizes. A prima mais velha casou e teve um filhinho com bochechas enormes! As crianças cresceram, aprenderam a beber cerveja e montaram o seu próprio bloco de carnaval. Titio que morava longe nunca mais ligava para a vovó. O vovô morreu e no dia em que ele morreu nasceu uma criança. Um titio fugiu com a secretária, o outro sumiu sem avisar e uma titia tomou um porre e tascou um beijo em outro num bar famoso. Os primos crescidos, beberrões e carnavalescos mantiveram o contato pela internet e alguns até hoje se visitam, em visitas alternadas com os pais separados.
Titia fez uma tatuagem e está fumando maconha. A outra titia arranjou uma titia para a sua vida e teve primo aproveitando a deixa para sair do armário.

A gente pensa que sabe tudo. Pensa que a vida é uma constante. Mas a vida gira e dá voltas. E é por isso que desaprendi a acreditar em coisas eternas. A única coisa eterna na minha vida sou eu mesma, mais precisamente a minha mente e as minhas lembranças (existem aqui dentro momentos eternos), porque nem as idéias, e principalmente elas, estão perto da eternidade. Eu faço questão de mudar de idéia sempre que sinto necessidade.

O que seria hoje toda esta "família" reunida em torno de uma mesa? Seria uma festa? Seria uma chuva de merda?
Descobri que a felicidade é unilateral, que você divide quando quer, quando pode e quando está afim de.
Ninguém é feliz por estar junto.
E nem é triste por estar separado.
Cada um é feliz sozinho à sua maneira.
Bom quando dá pra dividir, né?

domingo, 29 de março de 2009

Borboletas no Estômago

Acordou ouvindo as gotas da chuva, as buzinas, os passos do vizinho do andar de cima. Não conseguiu evitar a chegada da angústia. Sorrateira, malandra, inconveniente, se instala sem ser convidada e se recusa a ir embora.

Decidiu então que não ia ler o jornal. Não ia entrar na internet. Não ia ligar pra ninguém. Não ia beber nada alcóolico. Nem ia comer nada calórico. Sentou no sofá e não ligou a televisão. Respirou fundo e não ligou o som. Só abriu um pouco a janela e ficou um tempo consigo mesma.

Não fingiu felicidade, não dramatizou tristeza. Apenas existiu por alguns minutos. E, ciente da angústia, ciente do buraco negro, ciente do vazio continuou sem fazer nada para negar que estavam ali.

Só assim sentiu paz.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Um Drink no Inferno

Uma Pin up anotou o meu nome na cartela. Admirei a maquiagem que ela fez nos olhos. Gostaria de ter coragem de sair montada assim na rua, mesmo depois carnaval. Sorri e entrei naquele inferninho escuro e enfumaçado. Um cara de bigode bebia cerveja de garrafa no sofá, ele me lembrava alguém, acho que o policial do Vilage People. Estava sozinho e pensativo, mas não me interessou. Minha meta era atravessar um corredor de corpos brilhantes e suados até o bar. Dá licença, oops, obrigada. Sorrindo sempre e ajeitando a franja. Senti estar boiando quase fora do aquário por não conhecer aquela música que em menos de quinze segundos provocou uma histeria generalizada em aproximadamente trinta e cinco pessoas. Até franzi um pouco a testa para ver se reconhecia, mas foi inútil. Abri a bolsinha que comprei no brechó, o único item em mim que talvez combinasse com o local. Bolsinha linda, diferente, mas pequena como o diabo. Levei um minuto e meio para conseguir retirar o maço de cigarros sem que os meus documentos e o troco do táxi espalhassem pelo chão. Depois de um esforço para fechar a bolsa e estender a cartela em direção ao balcão, foi difícil acender o cigarro, que derrapava na boca munida de gloss. Acho bonitos os lábios com gloss, mas eles atrapalham o ato de fumar. Não gosto de cigarro molhado, não dou traguinho, não dou golinho. Uma caipiroska de morango, por favor. Sem açúcar!

Enquanto ele preparava meu drink, fixei o olhar no globo. Adoro globos de luz negra. Sou capaz de ficar horas hipnotizada naquela bola gigante e reluzente. Senti vontade de twittar, mas me contive. O celular estava com quatro por cento de bateria e pra mim estava tudo ótimo, nenhuma ligação me interessava naquele dia. Conversei com um tatuado simpático, mas também não me interessei muito. Atravessei a pista e encontrei os três semi-conhecidos que me esperavam.

Brindei com aqueles que gostam de mim sem ao menos eu entender o porquê, já que nunca dei muitos motivos. Finalmente tocou uma música que eu conhecia. Dancei sem muito entusiasmo e e logo na segunda música desisti. Acendi outro cigarro. Tentei sugar o último gole de vodka com o canudinho, mas um pedaço de morango impedia a passagem. Comecei a comer os morangos junto com o que restava do gelo triturado do fundo do copo. Estava distraída, mas logo percebi que um cara me olhava fixo. Certamente estava achando sexy o trabalho oral que eu realizava ali tão imersa em pensamentos inúteis. Sorri simpática e me aventurei em mais uma ida ao bar. Caipiroska e outro cigarro.

O cigarro agora deslizava tranquilo nos lábios secos. Ôpa, desculpa. Não foi nada. Um casal afoito esbarra em mim. Beijam loucamente encostados no balcão. Pensei "get a room..." Talvez sejam amantes aproveitando seus escassos e proibidos minutos semanais. Talvez sejam namorados que se reencontram depois de uma viagem a trabalho. Ou brigaram e mergulharam no afoito beijo de quem faz as pazes. Muito provável que tenham se conhecido ali mesmo há menos de cinco minutos. Fiquei impressionada com a duração do beijo e foi difícil não olhar quando ele impulsionou os quadris contra ela, deslizando a mão no decote das costas. Uma boa pegada, avaliei. Belo preview da noite. Um bom trailer.

Só parei de olhar quando a caipiroska ficou pronta. Me arrependi da calça jeans que vesti na última hora e a imagem do vestido levinho que larguei em cima da cama torturou meu pensamento. Estava muito calor. Chupei uma pedra de gelo das grandes.

Pessoas animadas e dançantes. Eu sorria, fumava e me entretia com os morangos do copo. Depois desisti de tentar acompanhar o movimento daqueles corpos e saí da tela. Eu mergulhei pra fora da televisão e sentei no sofá imaginário da dimensão mais próxima. Mais confortável, terminei de observar a noite. Tirei algumas fotos psicodélicas, daquelas que as luzes borram as faces. Guardei comigo os frames da felicidade alheia, talvez eu conseguisse vivenciá-la da próxima vez.

Continuei flutuando. Invisível. Intocável. A qualquer momento eu podia evaporar. Mas resisti até a chegada do novo dia. E lembro ter adormecido com as luzes ainda acesas. Acordei mais cansada, mais surda, mais pobre e com o coração batendo exatamente no mesmo compasso.

Lembrei dos frames. Um dia vou revelar aquele filme, um dia vou entrar na tela. Um dia. Não hoje.



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quarta-feira, 11 de março de 2009

Ele vai casar

- Ele vai casar.

Fiz cara de descaso.

- Vai casar com aquela menina do vestido verde-água, lembra?

O descaso era verdadeiro, não fingi nem um segundo.

- Vai casar na igreja.

Salva pela última mordida da esfirra. Fingi que ia comentar o assunto, mas que a boca cheia me impedia.

- Olha lá seu irmão chegando. Filho, adivinha quem vai casar?

Enquanto eu tentava fazer aquela esfirra toda descer, o falatório diminuía o volume, ecoava mais longe, subia os degraus, fechava as portas. Em silêncio, engoli. E engasguei. Vermelha como um pimentão ainda tive que salvar a mim mesma do sufoco.

Mas o descaso é verdadeiro, não fingi nem um segundo. Mudei o canal da televisão, desliguei a televisão, abri um livro, fechei o livro, entrei na internet, desconectei e bufei.

Hoje são os convites de casamento, amanhã são as lembrancinhas de velório, que diferença faz?

quinta-feira, 5 de março de 2009

Algumas coisas do meu verão

Acordar cedo.
Correr na orla ouvindo The Ting Tings.
O cheiro do protetor solar e suas antigas memórias.
Celular desligado.
Rinite alérgica e o inevitável ar condicionado.
Um montinho de areia como travesseiro, deitar na canga sem pensar em nada.
Mergulhos estilo golfinho no mar verde transparente.
Sombra, livro, água fresca e mate com limão.
Horizonte contemplado por intermináveis minutos.
Cochilos no sofá a qualquer hora do dia.
Gargalhadas convidativas de um bebê saudável.
O violão espanhol daquele filme.
Cinema vazio no meio da tarde.
Meditação, respiração.
Nova perspectiva, decisão.
Assistir a própria vida passar como um filme mudo.
Ouvir tudo que há no nada.
Silêncio e solidão programada.
Sem hora pra dormir.
Ausência de relógio.
Bons e velhos amigos.
Samba, suor, boemia.
Rebolado, grito, cantoria.
Pessoas novas, espetaculares e com data de validade.
Sem pressa.
A paz de cochilar ao lado de um bebê cheiroso.
Falha na tentativa de desconectar.
O perfume do café das cinco.
Assistir todos os filmes em cartaz.
Ler todos os livros da fila de espera.
Rever antigos conceitos.
Jogar fora o que não serve mais.
Acolher o que faz bem.
No espelho, enxergar o que parecia estar sem foco.
Falar e ouvir as próprias palavras.
Cantar com a própria voz.
Olhar dentro dos olhos e entender tudo mais uma vez.
A barra pisca na tela branca à espera de palavras.
Palavras saltam livres e desorganizadas.
As palavras podiam ser melhores.
Liberdade.
Alguma saudade.
Nenhuma expectativa.

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