Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Brincando de Haikai em São Paulo

Brilham antenas
Luzes na janela
Penso no amanhã

Está seco
E na cozinha fria
Jaz um cacto

Chão de taco
Sofá preto
Me aquece um gato

Ladeiras me perseguem
Desde a infância
E eu subo

Taça de vinho
Janelas abertas
Cheiro de livro

Chuva cai
Pego o cobertor
E respiro

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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Chá Mate

Fazia frio e eu desejava algo quente. Menos calórico que um chocolate, menos forte que um café e com presença mais marcante que um simples chá de flores. Chá mate foi a escolha acertada naquela tarde cinza e chuvosa. Há muito tempo não tomava chá mate quente. E o cheirinho característico me fazia lembrar de duas coisas que amo: a praia de Ipanema e a minha falecida vovó.

Vovó adorava mate. Quente, gelado, no verão, no inverno. Na geladeira de sua casa era essencial, assim como a garrafa de água, a jarra de mate. Era o primeiro cheiro que sentia quando abria a geladeira e a primeira opção de acompanhamento em delícias diversas: bolos, biscoitos, doces, tortas.

Sinto saudade da vovó. Uma pena que de herança ela deixou somente este nariz que já detestei mais na adolescência e que hoje estou mais familiarizada, sempre evitando fotos de perfil, é claro. Pensando bem acho que eu herdei mais da vovó que o nariz. Eu herdei independência, disposição pra brigar e o mau humor charmoso, daqueles que você passa a tarde inteira rabujenta reclamando sem parar e faz as pessoas se divertirem. Eu só queria ter herdado um pouco mais de coragem para bater em cachorros furiosos e reagir a assaltos - isso eu definitivamente não herdei da vovó.

O cheiro de mate invadiu a minha sala e as minhas memórias. Lembro de derrubar meu mate no sofá de tanto rir com meu irmão da performance da vovó fazendo a dança do pintinho amarelinho do meio da sala. A festa era só nossa, já que os meus pais já tinham saído com o contrabaixo, a vodca e o chevette. Podíamos tomar mate e comer doces a vontade, além de dormir tarde. As melhores babás são definitivamente as avós!

A vovó sabia que ia partir. E ligava todos os dias para dar boa noite. Acho que ela temia ser a última e não queria ir assim sem dar tchau. Mas ela partiu numa manhã ensolarada, com verde, céu azul e eu em estado de choque contando piadas infames no velório. Mas ela me entende, não tem problema.

O cheiro de mate me trouxe a vovó, mais uma carioca viciada na bebida. O mate carioca é o cafezinho de uma cidade quente. E o meu paraíso particular muitas vezes se apresenta como uma canga colorida forrando a cadeira de praia na areia branca, fina, morna, macia.
O som do mar calmo, verde, transparente, gelado. Um céu azul sem nuvens numa manhã em Ipanema enquanto a praia ainda está abrigando poucas pessoas e o silêncio afaga o som do pensamento. O mate da praia é metade mate, metade suco de limão. Estupidamente gelado para lavar a alma.



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Sábado, 27 de Junho de 2009

Cat Lover

Eu adoro quando acordo sem certeza de nada. Adoro quando mudo de opinião e não me arrependo. Adoro a capacidade de sermos flexíveis como a água que não tenta vencer a pedra e a contorna sem desistir de chegar onde quer que seja. Eu sinto prazer sempre que sou capaz de destruir o senso comum que existe em mim.

Eu sempre repeti a frase "eu odeio gatos" sem nunca parar para raciocinar o que isso significava. Por que eu odiaria um gato? Não sei, mas percebo que todas as pessoas que nunca conviveram com gatos dizem que não gostam de gatos. Eu não vejo ninguém dizendo que odeia cachorros e olha que cachorros podem morder e os gatos na maioria das vezes são vítimas de experimentos diversos com criancinhas malévolas.

Eu não estou muito preocupada em carregar o estigma da solteirona solitária que acabou sua vida sozinha com vários gatos, um dia morreu, ninguém percebeu e os bichanos comeram todo o seu rosto. Por que hoje está frio, chovendo, eu abri um vinho delicioso enquanto assistia um dvd debaixo do cobertor com duas bolas de pêlo, duas bolas de amor.

Pedrinho e Aretha precisam de mim. Apesar de eu ostentar bastante carne no rosto e no corpo, eles preferem a ração que eu sirvo todos os dias com carinho. E parece que só agora eu percebi que tenho um motivo sério para continuar vivendo por pelo menos mais uns 20 anos.








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Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Crise

Prometi a mim mesma que a última parte do meu corpo que sofreria com a crise, seria a bunda. E ontem, pela primeira vez, usei um papel higiênico chamado Flofys. Pela gravidade da situação, neste frio de São Paulo, eu vejo a chuva cair pela janela e sonho com Neve. A pimenta também está temporariamente fora do cardápio.

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Algum boêmio descolado aí já passou pela provação humilhante chamada avaliação física numa academia? Pois ontem eu descobri que sou uma massa gorda flutuando em muitos porcentos de banha. Ainda bem que sou inteligente, bem humorada, simpática e boa de cama. Zzzzzzzz...

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Para completar as curtinhas humilhantes gostaria de acrescentar que durante a minha última sessão de análise percebi que a minha questão principal é uma sinopse amassada e fedorenta de um filme trash de oitava categoria. Minha storyline não vende nem para o sbt. Ao menos o clichê é meu amigo, eu sabia, sempre dei atenção a ele.

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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Barbas

Repórter: O que a senhorita tem a dizer sobre todas essas barbas que andaram roçando no seu pescoço esta semana?

Senhorita: Sim, eu estou dando mais que chuchu na serra. A diferença é que o chuchu é desonesto e eu sou fiel aos meus hormônios.


Sábado de manhã ela desceu do elevador com aquele de barba não definida, bem mais novo que ela e mochila nas costas. Latinha de coca-cola-cura-ressaca numa mão e o celular na outra. Um resquício de rímel nos cílios denunciava uma noite pesada. Corre, trabalha, almoça com a família e meia-noite tá de volta a tempo de descansar para a balada que começa às 2 da manhã.

Quarta desceu toda perfumada e entrou num taxi com aquele dos cabelos propositalmente despenteados, levemente grisalhos e barba linda e mal feita. Chopp gelado com 2 dedos de colarinho cremoso. Bolinho de arroz. Muitos cigarros no cinzeiro. Tudo por conta daquele canal de televisão que ela adora. Na manhã seguinte, a cena se repete na portaria. Beijo, tchau, não precisa me dar carona, eu vou para o outro lado.

Sexta de madrugada toca o interfone. Um delivery que há tempos não recebia. E os vizinhos esbarraram no elevador com aquele que anda por aí todo estiloso, parecendo um cantor de hip hop com uma barba cheirosa que é boa de puxar. Sábado de manhã o porteiro sorri e ela se despede novamente. Ele sobe a ladeira a pé e ela desce de bicicleta.

A sua avó sempre disse que era uma devassa do raio.
Para alguns é uma libertina.
Para outros, no entanto, é apenas solteira.


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Domingo, 31 de Maio de 2009

Uma visão otimista sobre a Lei Anti Fumo


A nova lei proíbe cigarro ou derivados de tabaco em ambientes de uso coletivo, públicos ou privado, total ou parcialmente fechados em qualquer um dos lados por parede ou divisória, em todo o Estado. Entre os locais de proibição estão áreas internas de bares e restaurantes, casas noturnas, ambientes de trabalho, táxis e áreas comuns fechadas de condomínios.

Em agosto começa a palhaçada.
Perseguição nazista!
O cigarro foi escolhido como o grande vilão do momento, tudo é culpa dele.

- Cof, cof.
- Essa tosse não foi a chuva que você pegou. Essa tosse é o cigarro.


- Não tá subindo, doutor.
- Você fuma? A impotência nem é o stress no trabalho, é o cigarro mesmo!


- É câncer.
- Sempre disse que você devia parar de fumar. Não é genético e nem a sua alimentação desregrada, é o cigarro com certeza!


- A casa pegou fogo.
- Alguém aqui é fumante? Por que fumantes sempre deixam cigarros acesos por aí, são pessoas perigosas...

- Ele pediu o divórcio.
- Fuuuummaaaaa! Não, claro que ele não tem outra. Agora você fica fumando né? Quer o quê?

- Tirei nota baixa.
- Também, só quer saber de fumar no corredor!



E por aí vai.

O meu maço de cigarros favoritos, marlboro light, está custando quatro reais e cinquenta centavos. Um aumento absurdo! As ilustrações que vêm na caixa são exageradas e abusivas. Acho uma falta de respeito ao meu livre direito de fumar, ter que comprar um maço de cigarros com o desenho de um rato morto ou de um cara sem a perna. Eu peço sempre o da impotência sexual, que óbvio não me afeta ou o da menininha com asma, porque eu não tô nem aí pra ela mesmo, me desculpem.

Me pergunto porque na garrafa da cerveja não tem ilustrações de homens e mulheres com fratura exposta em acidentes de trânsito ou crianças com o rosto deformado de tanto apanhar de um pai alcóolatra.

Me pergunto também porque na embalagem da carne que compramos no supermercado não vem fotos de animais torturados, mutilados, cegos, tratados como objetos. Nesta embalagem podia ter a foto de um porco sendo esfaqueado vivo, gritando e explodindo em sangue. Ou podia ter o retrato de uma criança de rua faminta, que não tem o que comer porque todo o cereal produzido na sua cidade foi usado para alimentar um boi que vai ser morto, torturado e depois vendido por um preço que ela não pode pagar.

E por aí vai.

Deixando a tragédia e a perseguição de lado, vamos para a visão otimista.
Entrando em vigor esta lei idiota, o que vai acontecer? As pessoas vão parar de fumar ou vão criar situações favoráveis e inteligentes para continuarem com o seu vício adorado? Claro que é a segunda opção!

O que me faz feliz em São Paulo hoje, além do Frapuccino do Starbucks, da Livraria Cultura e da paisagem de concreto é a enorme quantidade de fumantes. Ao menos aqui, na minha cidade (olha, já chamo de minha!!!), os lugares de balada já estão providenciando uma mudança em sua estrutura, só para abrigar os fumantes. Existem também as charutarias, que eu nunca fui porque acho que tem cara de lugar de velho rico. Mas acredito que as charutarias vão ser cada vez mais frequentadas por um público jovem e fumante. E o que vai acontecer? Esses lugares vão se transformar em verdadeiros bares de fumantes, onde o não fumante é que atrapalha e está no lugar errado.

Já imagino uma decoração vintage com fotos das grandes estrelas do cinema americano com sua cigarrilha na mão. No som, jazz, soul e muito rock 'n roll. Vou chegar, acender meu marlboro light, pedir um drink e ninguém vai me olhar como se eu fosse uma bruxa que deve ser jogada na fogueira.

Criados estes lugares aconchegantes, livres e estilosos vocês já sabem qual vai ser a tendência, né? Como nós fumantes somos mais charmosos e irreverentes, os não fumantes de bom gosto vão começar a frequentar os bares de fumantes. Pronto. Além de resolver o problema da lei estúpida, fumar volta a ser cool.

Paro de escrever por aqui para beber um capuccino e acender mais um marlboro light, saboreando tudo o que há de delicioso e politicamente incorreto aqui em casa. Pra finalizar então, pau no cu do Hitler, do Stalin, dos senhores de engenho, dos sonegadores de impostos, dos caras de Brasília, dos milionários que vivem cercados de muros e grades cultuando o medo, pau no cu da Globo, pau no cu da Folha de São Paulo, pau no cu da vizinha que reclama do som alto, do chefe que não faz sexo, pau no cu de quem não gosta de gatos e, claro, pau no cu dos não fumantes ativistas.

Ufa.
Aretha e Almodóvar brincam com a fumaça que se espalha tomando formas divertidas no ar.


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Sábado, 30 de Maio de 2009

O último vício

22 de setembro de 2059.

Hoje completo oitenta anos. Estou aqui distraída olhando as fotografias que tirei por aí, em Sampa, desde 2009. Letícia, minha querida sobrinha foi a primeira a chegar. Olhei para ela com cuidado. Minha menina, já com trinta anos e o mesmo sorriso que carregava no bebê conforto. Minha sobrinha, afilhada, filha emprestada, a garota mais bonita do mundo está agora admirando meu álbum de fotografias e implicando com o meu cigarro. Algumas coisas não mudam nunca.

- Tia, que foto é essa? Que nojo!

- É um açougue, querida.

- Eu sei, eu li sobre isso... é verdade que há cinquenta anos as pessoas matavam os bichos e vendiam a carne assim, pendurada na vitrine pra todo mundo ver?

- Passa o isqueiro, querida.

- Vai acender outro?

- Relaxa que esse é natural...

- Ah, eu comprei um maço de Janis Joplin hoje de manhã e...

- Maço? Querida, olha o que eu ganhei da Bahia...

- Mas como você enrola isso, tia?

A beringela gratinada saiu do forno e senti um aperto no coração. Coloquei a câmera na mão da Letícia e ela conseguiu tirar nosso último retrato. Minutos depois parei de respirar. Mas ela sabia que na terceira gaveta da sala estava o pen drive cor de rosa, com a história da minha não tão surpreendente, mas fascinante vida.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Sobre a Desonestidade do Chuchu

Eu acho o chuchu desonesto.
Desonesto, cínico e malandro.
Portanto não confio no chuchu, assim como não confio em quem diz gostar dele.
Existe decepção maior do que morder um chuchu quentinho e macio ao confundi-lo com uma batata e depois ter a desagradável sensação do maldito explodindo em água na boca?
Eu acho um desaforo sem tamanho!
E ainda por cima ainda quer dar uma de fruta.
Alguém aí acredita que o chuchu é uma fruta?
Olha, me desculpem, o tomate eu engulo, mas o chuchu...
Não é fruta nem aqui, nem na China!
Vou até falar mais baixo, para a maçã que repousa ao meu lado não se sentir deslavorizada.
Humpf.

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

O Gato, o Vidraceiro e o Saquinho de Vômito

Uuuuuugh! Aullllghh. Domingo, 8 da manhã. Já que o tapete dela era macio e a cama de hóspedes estava um pouco longe, decidi dormir o resto da manhã ao lado da privada.

Ela bebeu muito mais que eu! E ela nunca bebe... Foram 4 chopps e uns copinhos de cerveja de garrafa, todos degustados com o estômago muito bem forrado, obrigada. O vidraceiro quis saber se foi algo que eu comi. O mesmo vidraceiro que costuma fazer perguntas inconvenientes pra ela, do tipo "mora sozinha mesmo? não é casada? não tem filhos?" Eu disse a ela que respondesse em tom de choro que foi a única que sobrou do acidente, pronto, calava a boca do sujeito.

Estava deitada ao lado da privada quando ouvi as respostas educadas que ela deu para o vidraceiro. É, existem pessoas melhores que eu no mundo. Pessoas que bebem vários copos de cerveja na noite anterior e acordam às oito da manhã de domingo com sorriso, charme e paciência com vidraceiros curiosos.

Uuuuuugh! Aullllghh. Oh, não! Mais uma vez? Não tem mais nada pra sair. Ai, fudeu, algo quente e amargo se anuncia no fundo da garganta. Odeio vomitar a bile!

O gato me observava de longe. Ele estava realmente muito preocupado, mas foi discreto e elegante, me deixando à vontade. Eu que sempre impliquei com aquele gato, me sensibillizei com o apoio silencioso e não invasivo.

Assim que o vidraceiro saiu, nos despedimos do gato e entramos no carro. Ela me deu um saquinho plástico e tentamos atravessar a poça sem maiores transtornos. Rumo ao almoço familiar de domingo, íamos eu, o saco plástico, ela e a mulher da net que, na outra linha e no gerúndio, a deixava esperando, esperando, esperando.


Uuuuuugh! Aullllghh. Que merda! Saquinho fedorento!

Eu já te dei o número de protocolo cinco vezes, por que você está me transferindo de novo? Alô?

Até que enfim a minha prima perdeu o charme e a simpatia. Finalmente consegui alguém malévolo para me acompanhar nas desgraças mundanas daquele domingo de merda. Eu não conseguia falar nada, mas cada vez que o líquido amarelo e quente explodia pra fora na língua naquele saquinho fedido e cinza eu me sentia solidária com ela e vice versa.

Uuuuuugh! Aullllghh. O meu cpf é 09063... Uuuuuugh! Aullllghh. Eu acho um absurdo isso, um desrespeito! Uuuuuugh! Aullllghh. Minha filha, você ouviu o que eu disse, qual o seu problema? Uuuuuugh! Aullllghh. Uuuuuugh! Aullllghh. Quer saber? Cancela! Cancela tudo! Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh.Uuuuuugh! Aullllghh!!!!!!!!! Cancela!

Ela bateu o celular com tanta força que a bateria pulou longe. No mesmo minuto eu abri a janela e coloquei a cabeça pra fora. 3 segundos depois, uma olhou para a outra e era impossível não rir. A cena mais cômica que eu vivi nos últimos domingos.

Então valeu.


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Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Atestado de Óbito

É com um certo pesar, porém com uma confiança na inteligência do cosmos que comunico o falecimento da Capeletti. Não se preocupem, ela está bem. Vive agora no mundo fantástico de Alice e Miss Lexotan. Qualquer dia ela baixa em mim aqui no blog, quem sabe num dia frio de inverno, acompanhada de uma taça de vinho tinto. Por enquanto, sigo sozinha comigo mesma, bem vieira, e sem personalidades adicionais. Por enquanto!

Que assim seja.


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Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Escrevi em fevereiro de 2005 e não criei um título

(Organizando os marcadores do meu blog encontrei este texto. Feliz aniversário para a falecida vovó e relembrar é tão bom... brindo o post num copo de vidro com cerveja dentro.)

Era uma vez uma grande família. Tão grande e unida que mais parecia núcleo de novela, onde só existe um médico, um advogado, um fanfarrão e as personagens têm filhos ao mesmo tempo e no embalo dos últimos capítulos. Mas esta é uma pós-novela e tudo começa lá pelas voltas do ano de 1979, onde somente neste ano e pelas contas aqui dos dedos nasceram seis bebezinhos, cada um pertencente a um lugar diferente do Brasil.

Salvador, Ilhéus, Porto Seguro, Itabuna, Niterói, Taubaté.

Mas nas férias todos se reuniam na casa da vovó e do vovô. E lá pelas tantas os netos já somavam treze. Cada um com uma caneca de plástico com o nome gravado e uma espécie de bacia de metal, que chamavam de prato. E só depois de comer todo o conteúdo da bacia, podíamos matar a sede com suco de cacau trazido da roça.

Com olhinhos pequenos e sonhos grandes eu almejava o dia em que iria transpor barreiras e comer em pratos de vidro, talheres grandes, comeria feijão com farinha e pimenta e aquelas moquecas amareladas de dendê, que não faziam bem para as crianças. Entre um bife cortadinho com arroz e suquinho na canequinha eu sonhava em beber cerveja em copo de vidro de molho de tomate! E ficar bêbada quando quisesse e até tarde da noite, relembrando velhos tempos e celebrando conquistas.

Titia e titio eram felizes. A prima mais velha casou e teve um filhinho com bochechas enormes! As crianças cresceram, aprenderam a beber cerveja e montaram o seu próprio bloco de carnaval. Titio que morava longe nunca mais ligava para a vovó. O vovô morreu e no dia em que ele morreu nasceu uma criança. Um titio fugiu com a secretária, o outro sumiu sem avisar e uma titia tomou um porre e tascou um beijo em outro num bar famoso. Os primos crescidos, beberrões e carnavalescos mantiveram o contato pela internet e alguns até hoje se visitam, em visitas alternadas com os pais separados.
Titia fez uma tatuagem e está fumando maconha. A outra titia arranjou uma titia para a sua vida e teve primo aproveitando a deixa para sair do armário.

A gente pensa que sabe tudo. Pensa que a vida é uma constante. Mas a vida gira e dá voltas. E é por isso que desaprendi a acreditar em coisas eternas. A única coisa eterna na minha vida sou eu mesma, mais precisamente a minha mente e as minhas lembranças (existem aqui dentro momentos eternos), porque nem as idéias, e principalmente elas, estão perto da eternidade. Eu faço questão de mudar de idéia sempre que sinto necessidade.

O que seria hoje toda esta "família" reunida em torno de uma mesa? Seria uma festa? Seria uma chuva de merda?
Descobri que a felicidade é unilateral, que você divide quando quer, quando pode e quando está afim de.
Ninguém é feliz por estar junto.
E nem é triste por estar separado.
Cada um é feliz sozinho à sua maneira.
Bom quando dá pra dividir, né?

Domingo, 29 de Março de 2009

Borboletas no Estômago

Acordou ouvindo as gotas da chuva, as buzinas, os passos do vizinho do andar de cima. Não conseguiu evitar a chegada da angústia. Sorrateira, malandra, inconveniente, se instala sem ser convidada e se recusa a ir embora.

Decidiu então que não ia ler o jornal. Não ia entrar na internet. Não ia ligar pra ninguém. Não ia beber nada alcóolico. Nem ia comer nada calórico. Sentou no sofá e não ligou a televisão. Respirou fundo e não ligou o som. Só abriu um pouco a janela e ficou um tempo consigo mesma.

Não fingiu felicidade, não dramatizou tristeza. Apenas existiu por alguns minutos. E, ciente da angústia, ciente do buraco negro, ciente do vazio continuou sem fazer nada para negar que estavam ali.

Só assim sentiu paz.

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Um Drink no Inferno

Uma Pin up anotou o meu nome na cartela. Admirei a maquiagem que ela fez nos olhos. Gostaria de ter coragem de sair montada assim na rua, mesmo depois carnaval. Sorri e entrei naquele inferninho escuro e enfumaçado. Um cara de bigode bebia cerveja de garrafa no sofá, ele me lembrava alguém, acho que o policial do Vilage People. Estava sozinho e pensativo, mas não me interessou. Minha meta era atravessar um corredor de corpos brilhantes e suados até o bar. Dá licença, oops, obrigada. Sorrindo sempre e ajeitando a franja. Senti estar boiando quase fora do aquário por não conhecer aquela música que em menos de quinze segundos provocou uma histeria generalizada em aproximadamente trinta e cinco pessoas. Até franzi um pouco a testa para ver se reconhecia, mas foi inútil. Abri a bolsinha que comprei no brechó, o único item em mim que talvez combinasse com o local. Bolsinha linda, diferente, mas pequena como o diabo. Levei um minuto e meio para conseguir retirar o maço de cigarros sem que os meus documentos e o troco do táxi espalhassem pelo chão. Depois de um esforço para fechar a bolsa e estender a cartela em direção ao balcão, foi difícil acender o cigarro, que derrapava na boca munida de gloss. Acho bonitos os lábios com gloss, mas eles atrapalham o ato de fumar. Não gosto de cigarro molhado, não dou traguinho, não dou golinho. Uma caipiroska de morango, por favor. Sem açúcar!

Enquanto ele preparava meu drink, fixei o olhar no globo. Adoro globos de luz negra. Sou capaz de ficar horas hipnotizada naquela bola gigante e reluzente. Senti vontade de twittar, mas me contive. O celular estava com quatro por cento de bateria e pra mim estava tudo ótimo, nenhuma ligação me interessava naquele dia. Conversei com um tatuado simpático, mas também não me interessei muito. Atravessei a pista e encontrei os três semi-conhecidos que me esperavam.

Brindei com aqueles que gostam de mim sem ao menos eu entender o porquê, já que nunca dei muitos motivos. Finalmente tocou uma música que eu conhecia. Dancei sem muito entusiasmo e e logo na segunda música desisti. Acendi outro cigarro. Tentei sugar o último gole de vodka com o canudinho, mas um pedaço de morango impedia a passagem. Comecei a comer os morangos junto com o que restava do gelo triturado do fundo do copo. Estava distraída, mas logo percebi que um cara me olhava fixo. Certamente estava achando sexy o trabalho oral que eu realizava ali tão imersa em pensamentos inúteis. Sorri simpática e me aventurei em mais uma ida ao bar. Caipiroska e outro cigarro.

O cigarro agora deslizava tranquilo nos lábios secos. Ôpa, desculpa. Não foi nada. Um casal afoito esbarra em mim. Beijam loucamente encostados no balcão. Pensei "get a room..." Talvez sejam amantes aproveitando seus escassos e proibidos minutos semanais. Talvez sejam namorados que se reencontram depois de uma viagem a trabalho. Ou brigaram e mergulharam no afoito beijo de quem faz as pazes. Muito provável que tenham se conhecido ali mesmo há menos de cinco minutos. Fiquei impressionada com a duração do beijo e foi difícil não olhar quando ele impulsionou os quadris contra ela, deslizando a mão no decote das costas. Uma boa pegada, avaliei. Belo preview da noite. Um bom trailer.

Só parei de olhar quando a caipiroska ficou pronta. Me arrependi da calça jeans que vesti na última hora e a imagem do vestido levinho que larguei em cima da cama torturou meu pensamento. Estava muito calor. Chupei uma pedra de gelo das grandes.

Pessoas animadas e dançantes. Eu sorria, fumava e me entretia com os morangos do copo. Depois desisti de tentar acompanhar o movimento daqueles corpos e saí da tela. Eu mergulhei pra fora da televisão e sentei no sofá imaginário da dimensão mais próxima. Mais confortável, terminei de observar a noite. Tirei algumas fotos psicodélicas, daquelas que as luzes borram as faces. Guardei comigo os frames da felicidade alheia, talvez eu conseguisse vivenciá-la da próxima vez.

Continuei flutuando. Invisível. Intocável. A qualquer momento eu podia evaporar. Mas resisti até a chegada do novo dia. E lembro ter adormecido com as luzes ainda acesas. Acordei mais cansada, mais surda, mais pobre e com o coração batendo exatamente no mesmo compasso.

Lembrei dos frames. Um dia vou revelar aquele filme, um dia vou entrar na tela. Um dia. Não hoje.



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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Ele vai casar

- Ele vai casar.

Fiz cara de descaso.

- Vai casar com aquela menina do vestido verde-água, lembra?

O descaso era verdadeiro, não fingi nem um segundo.

- Vai casar na igreja.

Salva pela última mordida da esfirra. Fingi que ia comentar o assunto, mas que a boca cheia me impedia.

- Olha lá seu irmão chegando. Filho, adivinha quem vai casar?

Enquanto eu tentava fazer aquela esfirra toda descer, o falatório diminuía o volume, ecoava mais longe, subia os degraus, fechava as portas. Em silêncio, engoli. E engasguei. Vermelha como um pimentão ainda tive que salvar a mim mesma do sufoco.

Mas o descaso é verdadeiro, não fingi nem um segundo. Mudei o canal da televisão, desliguei a televisão, abri um livro, fechei o livro, entrei na internet, desconectei e bufei.

Hoje são os convites de casamento, amanhã são as lembrancinhas de velório, que diferença faz?

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Algumas coisas do meu verão

Acordar cedo.
Correr na orla ouvindo The Ting Tings.
O cheiro do protetor solar e suas antigas memórias.
Celular desligado.
Rinite alérgica e o inevitável ar condicionado.
Um montinho de areia como travesseiro, deitar na canga sem pensar em nada.
Mergulhos estilo golfinho no mar verde transparente.
Sombra, livro, água fresca e mate com limão.
Horizonte contemplado por intermináveis minutos.
Cochilos no sofá a qualquer hora do dia.
Gargalhadas convidativas de um bebê saudável.
O violão espanhol daquele filme.
Cinema vazio no meio da tarde.
Meditação, respiração.
Nova perspectiva, decisão.
Assistir a própria vida passar como um filme mudo.
Ouvir tudo que há no nada.
Silêncio e solidão programada.
Sem hora pra dormir.
Ausência de relógio.
Bons e velhos amigos.
Samba, suor, boemia.
Rebolado, grito, cantoria.
Pessoas novas, espetaculares e com data de validade.
Sem pressa.
A paz de cochilar ao lado de um bebê cheiroso.
Falha na tentativa de desconectar.
O perfume do café das cinco.
Assistir todos os filmes em cartaz.
Ler todos os livros da fila de espera.
Rever antigos conceitos.
Jogar fora o que não serve mais.
Acolher o que faz bem.
No espelho, enxergar o que parecia estar sem foco.
Falar e ouvir as próprias palavras.
Cantar com a própria voz.
Olhar dentro dos olhos e entender tudo mais uma vez.
A barra pisca na tela branca à espera de palavras.
Palavras saltam livres e desorganizadas.
As palavras podiam ser melhores.
Liberdade.
Alguma saudade.
Nenhuma expectativa.

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Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Além de dois existem mais (e aquele nosso amor livre que nunca acaba)


Quando eu era adolescente e comecei a aprender violão, "toca raul" ainda não era uma frase pejorativa nas rodinhas de violão. Naquelas tardes de calça jeans semi-baggy, nauru e camiseta básica a única coisa realmente importante era saber cantar faroeste caboclo inteira. Eu sofri tanto pra decorar aquela merda que se eu começar a cantar agora acho que lembro dela todinha: não tinha medo o tal joão de santo cristo era o que todos diziam quando ele se perdeu... Ai. Perdi o foco. "Toca rauuuuul!" Ah, sim, claro. o Raul. Na verdade não é sobre o Raul que eu quero falar, mas sobre aquela música, qual o nome mesmo... A Maçã!

Naquelas inocentes rodinhas de violão em que eu cantava "i touch myself" e "don´t wanna short dick man" sem saber do que se tratava, também não podia entender a fundo "a maçã". Muitos anos depois, com uma calça jeans mais reta e fazendo careta pra quem pede Raul, muitas vezes fazendo careta para as próprias rodinhas, começo a entender aquela letra. Posso dizer que compreendo, admiro, mas nunca consegui colocar nada parecido em prática. No dia que cheguei perto, foi uma catástrofe absoluta!

Numa tarde baiana, regada a violão e catuaba aconteceu o grande encontro. Do lado de fora ele exibia uma simplicidade ímpar, mas tinha algo de extraordinário no olhar. Eu nunca tinha sentido nada parecido com aquilo. Era tão forte que provocava um incômodo fora do comum. Aliás, tudo o que se referia àquele cara era incomum. Morri de medo porque, apesar de estar disfarçada debaixo dos cabelos vermelhos e dos piercings, do ray-ban cor de rosa e do blues, por dentro eu me sentia ainda uma daquelas menininhas loiras, fabricadas em série, queridinhas do papai e que só namoram bonitões com um futuro brilhante e conservador.

Depois de alguns beijos alucinantes, noites esplêndidas, declarações prematuras de amor e papos filosóficos sobre nos conhecermos de outras vidas, tive a cara de pau de dizer pra ele esquecer o que aconteceu. Eu sentava atrás dele no cursinho e um dia levantei e fui embora. Ele ficava olhando pra trás pra ver se eu voltava, mas só voltei dois dias depois. Antes de conhecer aquele cara eu tinha o controle, ou a ilusão do controle. Agora eu não conseguia controlar nada e assim, depois de algumas tentativas frustradas de fazer ele ir embora eu me joguei.

Foi uma experiência que nem consigo definir de tão incrível! Sinto que durante o ano de 2000 fui abduzida da terra e conheci um pouco de outro mundo, distante daquele mundinho limitado que os meus olhos eram capazes de enxergar. Talvez as profecias sobre o fim do mundo no ano 2000 estivessem corretas, ao menos o meu mundo acabou naquele ano e daquele momento em diante eu pisei em outro planeta, este que estou hoje.

Vivemos exatamente um ano e seis meses de amor, paixão e monogamia. Até que ele veio com a maldita maçã. Se eu te amo e tu me amas, um amor a dois profana, o amor de todos os mortais. Por que quem gosta de maçã, irá gostar de todas, porque todas são iguais.

Não entendi. Achei que era brincadeira. Mas ele insistiu. Se esse amor ficar entre nós dois, vai ser tão pobre amor, vai se gastar... Eu não podia acreditar. A gente tinha uma música e um banquinho no Costa Azul. Alguns anos depois eu iria descobrir que ele cantou aquele música para várias mulheres e popularizou o banquinho. Eu senti o corpo inteiro tremer e o chão sumir, mas segurei as lágrimas e fingi que por mim tudo bem. Se eu te amo e tu me amas e outro vem quando tu chamas, como poderei te condenar? Infinita a sua beleza, como podes ficar presa que nem santa no altar?

A maçã que destruiu Eva e Adão e envenenou a Branca de Neve estava entalada na minha garganta. E se eu tinha vivido os dias mais felizes da minha vida no último ano, agora estava prestes a viver os mais amargos. Por isso eu fui embora sem me despedir e sem deixar rastros. Amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade. Sofro, mas eu vou te libertar.

Eu concordo com o Raul, com o meu amor extraterrestre e com todos os que conseguem viver um amor livre, mas acho que ainda estou engatinhando nesta escola. Eu não acredito mais em contos de fadas ou em historinhas bíblicas, mas sempre que o meu coração requebra por alguém faço de tudo para acreditar na monogamia. Penso que ela existe, mas tem curta duração. E quando, além de dois, começam a existir mais eu opto por ir embora.

Depois de 3 anos sem comer maçã, depois de ter cortado todas as possibilidades de contato ele me achou. Fiquei 5 anos tentando fugir de novo até que desisti. Abri mão. Levantei a bandeira branca. Ele me contou das maçãs que colheu por aí e eu disse que não era muito chegada na fruta. Ele não tentou me convencer a dar uma mordida. Ele é livre, a vida dele cabe numa mochila! Às vezes tento defini-lo, mas é impossível. Amigo colorido, extraterrestre, buda, amor impossível. Ele é tudo isso e nada disso, porque como ele mesmo me ensinou, os rótulos não existem.

Continuo sem gostar de maçã, mas sempre que vou à feira admiro aquelas vermelhas brilhantes, sedutoras. Por enquanto posso dizer que estou feliz de viver perto do cara que me abduziu para um mundo melhor, mais livre. E esse foi o primeiro presente que a cidade cinza me deu.


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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

A Quarta Nota

O cenário é um quarto aconchegante e de pouca mobília. Na cabeceira improvisada, um banquinho roxo estilo anos 70, havia uma taça com dois dedos de vinho tinto, um óleo de massagem sabor menta e um livro do Murakami. No chão, além da calça jeans e da camiseta com cheiro de cigarro, havia plumas cor de rosa e azuis. Na maçaneta da porta o vestido colorido, outrora arremessado e, escondida embaixo da cama, a calcinha preta que procurou por alguns segundos antes de adormecer nua.

A cama parecia letra do Chico Buarque, com marcas de amor nos nossos lençóis. E ali repousava um deus grego adormecido. Estirado de braços abertos e ocupando todo o espaço com seus bem distribuídos um metro e oitenta e sete, aparentava estar morto. O morto mais belo que o seu edredon um dia sonhou em acolher. Em suas últimas horas de vida, ostentava um olhar misterioso e um sorriso aconchegante. Sem falar dos cabelos, que carregavam os fios mais macios que ela alisou. Displicentes aqueles fios, que caíam no rosto de vez em quando, dando um toque final ao conjunto da obra, de um charme inegável, irresistível.

Enquanto admirava o cenário, ela sentiu o coração palpitar e prendeu a respiração por longos e inquietantes minutos. Sua intuição gritava coisas que não conseguia compreender direito, parecia outra língua, grego talvez. Naquele instante de prazer e pavor perdeu o controle da própria mente, já que o controle do corpo fora tomado na madrugada interminável e curiosamente fria do fim do horário de verão. Algo dizia que ela estava se transformando numa mulher inédita comparada a todas as mulheres que já tinha encarnado antes. Como se os rascunhos das anteriores se juntassem numa obra mais bem acabada. E aquela nova mulher, quase balzaquiana, que sabe o que quer, que ama e dá prazer como nenhuma outra não tem medo algum de se aventurar em esportes mais radicais, como dormir uma noite inteira com um homem e oferecer ovos mexidos no café da manhã.

De volta ao cenário encontrou um espaço na cama e, enlaçada pelo grego que agora anunciava sinais de vida, fechou os olhos mesmo sem sono na tentativa de prolongar o estado de prazer. Bem discreta abriu os olhos e num delicioso flagra encontrou os olhos do amante com um sorriso no canto da boca.

Na vitrola da sala, Ella Fitzgerald sussurrava na última faixa do disco, a quarta nota de um não tão famoso, porém demasiado e íntimo jazz.


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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Larga o celular e vai ler um livro!

"Você ligou para a Tati Capeletti, aquela que não gosta de falar ao celular. Se for importante, deixe o seu recado. Caso contrário, ligue para outra pessoa. Lembrando sempre que sou a favor da mensagem de texto e do email. Por favor, não insista! Obrigada."

Não existe coisa mais invasiva que o celular.

Estou começando a desenvolver um certo pânico com essa coisa de ter que estar online e disponível para uma lista de pessoas o tempo todo. Lembra quando saíamos de casa sem a preocupação de ser "achado"? Lembra quando fazíamos uma ligação e, quando chamava e ninguém atendia, muito calmos pensávamos "que pena, fulano não está" e ponto? Fulano não está e PONTO. Talvez consiga falar com ele mais tarde, talvez não. PONTO. Vocês se lembram desta época? Nem é uma época tão distante... E como é que vim parar aqui nesta era do urgente, do imprescindível, esta era da chantagem emocional de mamma italiana?

"Ai, você não atendeu o celular." "Que absurdo, deixei recado na sua secretária eletrônica e nada!" "Você está brava comigo? Por que sempre fica offline quando eu entro no msn? Você me bloqueou?" "Poxa, você nem comenta mais no meu blog." "Buáaaaaaa, eu follow você no twitter e você me unfolow..."

Pelamordedeus!

Na internet até conseguimos nos safar com sucesso, simulando um estado de ausência ou um sinal de ocupado. Mas de fato a maioria das pessoas que estão na sua lista de amigos não respeita sinal algum, não é mesmo?

Eu já pensei em trocar de amigos, confesso. Mas percebi que a neurose da conectividade é uma coisa generalizada, que está infectando a maioria da população, de todas as idades, raças, credos, classes sociais e preferências sexuais. É uma neurose coletiva que dá vazão aos diversos distúrbios íntimos de carência afetiva.

E se na internet tá foda, meu amigo, no celular a coisa fugiu do controle. Raciocina comigo: por que diabos eu quero que o meu ex namorado consiga me achar e falar comigo dentro da minha ilha de edição, no meio da correria da tentativa de colocar um programa no ar aos 5 minutos do segundo tempo? E por que eu gostaria que a minha avó me achasse numa tarde de domingo pedalando a minha bicicleta para me perguntar se eu lembro daquela receita antiga?

Por favor, deixe o seu recado. Eu ligo de volta assim que puder, assim que estiver afim. Ligo de bom grado, ligo sim.

Os dois exemplos citados acima até que são simples sabia? A coisa muda de figura quando aquele amigo liga insistentemente. Você não atende e ele liga de novo. Liga duas, três, dez vezes. Este amigo está se candidatando a não fazer mais parte da minha lista. Mas este amigo chato é chato por natureza e, acredite, ele não vai ficar chateado quando eu resolver ligar 3 semanas depois. Já o amigo chato-sensível... É aquele que liga uma vez, você não atende e ele fica profundamente magoado!

Por favor, deixe o seu recado.

Voltando ao amigo-chato-sensível-magoado que depois vai se tornar o amigo puto da vida comigo e eu nem sei por que...
Eu atendo o celular se eu quiser. Por que é difícil de compreender isso? Por que eu preciso atender o celular quando as pessoas querem que eu atenda? Por que elas estão putas com o não atendimento instantâneo? Eu preciso atender as pessoas na hora que elas bem entendem? Eu hein!

É simples. Se for importante, deixe o seu recado.

As pessoas perderam a noção do limite de invasão. E as novas tecnologias não estão facilitando muito o estar só, estar em silêncio, estar em paz com a sua própria companhia... Não existe nada de errado em ligar, mas em esperar que o outro te atenda quando você bem entende. É por isso que o meu celular agora vive no silencioso e sem o vibrador. Eu dou uma olhada quando estou afim e retorno quando posso ou quero.

Egoísta? Sim, claro! E aos generosos e chantagistas emocionais de plantão, vamos promover juntos o desapego! Relaxe, respire fundo, larga esse celular e vai ler um livro!

Este foi mais um capítulo de auto-ajuda de Miss Lexotan.


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Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Não leia!

Tá me olhando com essa cara por quê? Hein, minha filha? Vai continuar me olhando com essa cara de merda? Qual é? Qual foi? Tá me achando bonita? Tá me encarando por quê? Quer levar uma na cara? Cara de cu, hein? Cara de cu que você tem. Estrupício!

Segurei o soco no ar. Não sou superticiosa nem nada, tô só sem grana mesmo pra comprar outro espelho.

TPM de merda!

E você? Tá olhando por quê também? Tá fazendo o quê aqui? Tem nada pra ler hoje não.

VAI EMBORAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

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Insônia e Caos

O chato é quando você acha que sabe o que não sabe, confia desconfiando, acredita desacreditada, imagina e sonha já se frustrando. Pior quando você dorme empolgada e acorda com a dúvida do querer. E quando decide que quer vê a incerteza no olhar do outro. E depois de um tempo você já não está assim tão disposta a encarar uma caixa postal ou uma ligação não atendida. E o tic tac do relógio não sabe dizer a hora certa para agir ou se é o caso de investir. Talvez seja cedo pra desistir. Ou para especular. Torturante tentar imaginar o que o outro pensa ou o que pensa que você pensa. Nem adianta tentar recaptular todos os gestos, frases e olhares, mesmo que em reverse ou câmera lenta. Eu dei um pause no olhar e soltei em slow motion pra sentir novamente os pingos da chuva a me molhar. Um sorriso que dura poucos segundos só pode desmanchar com a expectativa, que todos insistem que é possível evitar, mas será que será que será? Melhor não pensar. Talvez pensar seja um problema. É possível que não exista um teorema, nem um complexo e vasto sistema. Tenho quase certeza de que é uma coisa bem simples. Tão simples que escapa pela linha tênue entre estar desencanada-deixando-rolar e ansiosa-será-que-o-telefone-vai-tocar? Em tempos nublados melhor recuar. Na dúvida, abstêm-se. Porém, se a certeza não é certa, penso que a dúvida possa ser também engano. Eu sei que há coisas debaixo do pano. Eu estou sem o meu piano. E mesmo que os olhares se cruzem entre os acordes da guitarra, a qualquer momento o cabo do microfone pode falhar. Mal contato. Mau contato. Fiquei muda. Do lado de fora, apenas chuva. E nenhum pingo a me molhar.

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

A Questão da Fartura de Alice


Num fim de semana agitado, Alice conheceu um Zé.
Cara legal esse Zé!
No fim de semana seguinte, nada do Zé ligar.

Ih, olha lá Alice, era só mais um Zé...

E foi aí que Alice conheceu um Silva.
Cara legal esse Silva!

Ih, olha lá Zé, você foi dar uma de Zé e perdeu a Alice para o Silva.

No fim de semana seguinte, nada do Silva ligar. Era só mais um Silva... E eis que aparece o Zé. Porém, logo depois, quem apareceu de novo? Ele mesmo, o Silva.

Ih, olha aí a Alice toda confusa...

Alice conhece bem a especulação do mercado. Sabe que suas ações têm que estar em constante movimento. Portas sempre abertas e olhares atentos. Por que a propaganda feita de boca em boca é sempre mais eficaz!

O Zé sabe cozinhar. E não é qualquer miojo com molho pronto não! O Zé levanta a frigideira e faz a comida dançar no ar.

Já o Silva toca um instrumento. E não é qualquer instrumento não... o Silva toca Sax. É um sujeito com gosto musical refinado. O Silva é elegante.

O Zé nunca ouviu um disco do Miles Davis, mas é um cara divertido. O Zé é desencanado e topa todas!

Mas o Silva é um gentleman. O Silva é daqueles homens charmosos que abrem a porta do carro para a mulher entrar e entende de vinhos.

O Zé é aconchegante e com ele você se sente à vontade em qualquer lugar. Verdade que às vezes ele é um pouco bobo. Mas Alice valoriza uma pessoa que a faz rir.

O Silva é misterioso, pode-se dizer que é um tanto sério e levemente conservador. Mas tem um sorriso irresistível e um olhar enigmático que faz Alice querer decifrar seus segredos mais íntimos.

Lá no fundo, ela já escolheu.
Mas é melhor deixar quieto por enquanto...
Vai que aparece um terceiro!


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Nota do best seller de auto ajuda de Miss Lexotan:
Quando beber, desligue o celular.
Em noites aflitas, evite pesquisas em páginas pessoais na internet.
Respire fundo e medite sobre a existência, eficácia e consequências da monogamia.
Respeite, antes de qualquer coisa, os seus hormônios.
Agradeça sempre as épocas de fartura e aprenda a guardar o que puder para os momentos de crise.
Desperdiçar estepes é pecado hediondo!
Será que vale um Zé ou um Silva na mão, se você pode ter os dois e continuar voando?
Lembre-se sempre que os dias de fartura podem ser mais complexos do que os das vacas magras.



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Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Tic Tac Tic Tac Tic Tac

Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Respirei fundo e aumentei o volume da televisão.
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Acendi um cigarro e tentei me concentrar no filme.
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Maldito relógio. Maldito relógio!
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Mas olha, ele ficou tão bonito nesta parede vermelha. Um relógio estiloso que comprei na Benedito Calixto, tudo a ver com minha casa nova...
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Não é possível que faça tanto barulho, está insuportável!
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Calma, estou exagerando. É psicológico.
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Merda. Vou ter que desistir dele logo no primeiro dia. Mas o que vou fazer com este espaço vazio na parede, logo acima da tv? Ele tá perfeito ali. A Audrey Hepburn segurando sua cigarrilha em preto e branco contrastando com o vermelho. Lindo. Eu não quero tirar o relógio dali. Eu amo esse relógio!
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Respirei fundo mais uma vez.
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
É, eu não consigo, não consigo. Eu tenho toque!
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Saltei do sofá e arranquei a pilha do relógio fora.

...

Ah, que delícia o silêncio. Mas a Audrey agora parece morta e continua me olhando. Não, eu me recuso a tirar o relógio da parede. Ele é tão lindo que não precisa exercer a sua função de marcar as horas. Vou usá-lo como um quadro. Isso. Já esqueci dos ponteiros.

...

Não. Ele não é um quadro. Ele é um relógio. Vamos tentar mais uma vez.
Tic tac. Tic tac. Tic tac.
Ok. Não consigo. Mas também não abro mão da Audrey com cigarrilha em preto e branco na minha parede vermelha. Já sei. Ele vai ser um quadro-relógio. Vou colocar os ponteiros numa hora que signifique alguma coisa pra mim!

...

09:55, claro! A hora que nasci.

...

Merda de novo. Às nove e cinquenta e cinco os ponteiros passam por cima do olho esquerdo da Audrey. Funciona como relógio, mas não como quadro.

...

Tentei várias horas significativas, mas nenhuma funcionou. Optei pela estética e me parece que sete e vinte é o horário ideal para valorizar a foto. Então sete e vinte e não se fala mais nisso.

...

Meses se passaram até que o Chico veio com uma. Na primeira vez que entrou na minha sala já foi reparando logo no relógio e dizendo que ele estava parado. Expliquei que era um quadro relógio e menti que nasci às sete e vinte para tentar justificar o meu toque.

"Tati, relógio parado em casa não é bom. A vida atrasa."

Quem conhece o Chico sabe que o cara não é superticioso nem nada. Ele falou por falar. E quem conhece o Chico sabe que ele é aquele paulistano quase over-educado. Não falou por mal e pediu mil desculpas. Eu dei risada, abri outra latinha e nem liguei, mas bastou o Chico sair para eu voltar à minha neurose particular com o sofá, a parede vermelha, a televisão e a presença da Audrey.

...

Ah, eu não acredito nesta besteira de atrasar a vida. É só um relógio bonito! Aliás, é um quadro-relógio.

...

Será?

...

Ai ai ai, quanta besteira...

...

Ok, vou colocar a pilha e tentar mais uma vez. Tic... Acabou a pilha. Melhor assim. Eu hein. Decidi esquecer aquilo e esqueci. Até ontem, quando a Audrey saltou da parede, acredito que com o vento... (será?) e veio parar do meu lado gritando:

TIC TAC. TIC TAC. TIC TAC.

Confesso que fiquei perturbada. E agora mesmo ela está de volta na parede, marcando oito e cinquenta, cobrindo parte do olho esquerdo. Mas quem sou eu para mexer com esse tipo de coisa.

Deixa quieto...



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Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Espera

Você continua verde. Online. Nenhum sinal de ocupado ou ausente. Verdinho. Tão on, mas tão on, que me magoa. On e não fala comigo. Eu fico off, desligo o computador e vou ler um livro. Mas na primeira virada de página eu volto. Você ainda está verde. Talvez seja isso! Você está verde, ainda não posso colher. Um suspiro e a lembrança de um sinal verde, aberto. Como você pode estar verde e fechado? E porque eu me sinto ferida? O meu coração está aberto e você não se importa. Por que eu me importo com o que você se importa? Será que você se importa tanto que fechou a porta? Agradeço a preocupação e aviso que sei cuidar de mim. Aliás, se você olhar com atenção, vai ver a sombra da minha melissinha embaixo da porta. Eu não vou bater, não vou tocar a campainha e tampouco arrombar a sua fechadura. Apenas vou ficar no corredor por um tempo, caso você resolva abrir.

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

A calcinha da vovó de Alice

Alice estava de férias. Acordou de ressaca sem vontade alguma de se arrumar para o evento. Mas tinha que ir. Alice mesmo de férias é cheia dos compromissos, destes imperdíveis que incluem bons amigos e cerveja liberada até o outro dia.
Abriu a mala e percebeu que a maioria de suas roupas estavam lavando. Mesmo assim conseguiu improvisar um vestidinho levinho, um chinelinho e tá ótimo.
Ah, o verão...
Alice gosta do verão.
Gosta de pintar as unhas dos pés de vermelho e usar havaianas o dia todo. Na praia, no bar, no museu, no cinema. Em qualquer lugar ela chega de chinelinho. Ah... o verão de Alice é um bom verão!
Quase tudo certo e nenhuma calcinha bonitinha. Ah, tudo bem, não vou pegar ninguém... pegou aquela calcinha da vovó praticamente sem elástico que toda mulher guarda em segredo no fundo da gaveta pra dormir quando está sozinha e foi embora.
Calcinha da vovó, vestido levinho e chinelinho.
Alice saiu saltitante, lúdica, serelepe... bebeu, dançou, comeu, conversou... já estava quase indo embora quando ele apareceu. Coisa boa essa de encontrar alguém sem planos, expectativa zero e muito agito embaixo do vestido.
Alice apenas sorriu. É verão. Alice gosta muito do verão.
Algum papo depois e ela estava aceitando uma taça de vinho. Nenhum papo depois e ela estava em cima da mesa da cozinha completamente sem resistência.
Alice tem resistência fraca no verão. Talvez seja por causa da alimentação balanceada.
Fortes emoções agora encostada na pia e uma lembrança nada erótica. Alice estava com a calcinha da vovó. E agora? Ela não podia (e nem queria) parar o andar da carruagem.
É isso. O jeito é isolar a calcinha.
Alice jogou a calcinha tão longe e o cara nem percebeu.
Os caras da Alice, ao menos no verão, não costumam perceber muitas coisas...
Alice tem resistência fraca e um nível de exigência abaixo da média no verão.
Alice é tão feliz no verão!
Se dependesse de Alice, era verão o ano todo.
Ah, o verão...
Hora de ir embora. Veste o vestido levinho, calça um chinelinho. Procura o outro chinelinho embaixo da cama. Chinelinhos calçados, cadê a calcinha?
Alice não achou a calcinha da vovó.
Ela estava com sono.
E com ressaca dupla.
Alice almoçou apenas um abará com vatapá sem pimenta.
E desistiu da calcinha.
Ela nunca mais viu o cara. Que chama assim de cara por não lembrar o nome. Guardou daquele dia somente a marca do vinho, e inclusive já abasteceu a sua adega.
Alice precisa de um bom vinho para quando o inverno chegar.
Ela precisa de alguma companhia para se divertir sempre que lembrar da cara do homem achando a calcinha da vovó dentro da panela que descansava desprotegida em cima do fogão.

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Fora da área de cobertura ou desligado?

As três entraram no táxi. As duas primeiras eufóricas e tagarelas, a terceira calada e imersa em seus pensamentos.

"Ai essa chuva hein!" "Frente fria." "Amanhã vai fazer sol, tenho fé." "Choppinho então?" "Um japonês antes caía bem." "Fechou então."

A terceira concordava com uma piscada longa e um sorriso que ocupava meia boca.

"Ih, olha quem tá me ligando..." "Chama ele!" "Alô? Oi. Vamos tomar uma cerveja? Tem uma amiga aqui de São Paulo SOL-TEI-RA!"

A primeira desatou a rir. A terceira arregalou os olhos.

"De São Paulo... não, ela NÃO é paulista, só mora lá. Hum hum... Ai, você é muito chato, decide aí! Sempre reclama que não tenho amigas solteiras pra te apresentar. Ah, tá, então vou chamar o fulano também, aí vocês disputam ela no tapa! Beijo..."

A primeira estava quase fazendo xixi nas calças de tanto rir. A terceira levou a mão à testa sem acreditar no que tinha ouvido. O taxista já não conseguia mais prender o riso.

Ela até tentou se animar depois do missoshiro com cerveja, mas existia uma melancolia que, assim como a chuva fina, avisava que não pretendia ir embora até o fim da semana, sem se importar muito com o reveillón de ninguém. Ainda em silêncio, observou a mesa: as duas amigas animadíssimas, falando sem parar e os dois pretentendes até interessantes, cada um no seu estilo. E havia ainda um bonitão na mesa ao lado com quem trocou uns olhares.

Copo vai, chopp vem e por um momento a mesa do bar era um emaranhado de bocas, fumaças, olhares expressivos e risadas, porém tudo sem som. Era um show de mímicas praticamente. E ela continuava flutuante, intocável. Desviou o olhar para fora do bar e a partir daí só se ouvia o cair da chuva no asfalto.

Precisou fechar os olhos por um instante para receber as imagens da noite anterior, que vieram em flashes curtos e intensos. Respiração ofegante, barba no pescoço, mais uma dose, beija, levanta o vestido, olha nos olhos, traga o cigarro, um sorriso, ela nua de melissinha, ele tão moreno e descabelado, um gemido e um gozo que jorra por toda a parte.

Abriu os olhos e os quatro a encaravam ansiosos por uma resposta. Ela, a terceira, aquela que surpreendia de tão calada, resolve voltar para a mesa.

"Quero sim. O meu é claro e com 3 dedos de colarinho."

A noite seguiu o seu curso natural. Pegou o telefone de um, uma carona com o outro e acabou dormindo com a secretária eletrônica do terceiro, aquele que no momento está fora da área de cobertura ou desligado.


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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

3,14

Em comemoração ao tão esperado início do processo de resgate dos roteiros mofados das gavetas dos criados mudos, peço licença para um spamzinho de leve...

Gostaria de divulgar o curta que fiz este fim de semana com o Luter.
Pra quem não conhece o Luter, ele é praticamente a minha alma gêmea criativa. Ele é uma espécie de buda magro e com cabelo. Às vezes penso que ele é a minha própria consciência! E hoje quando acordei, depois de um fim de semana inteiro sem dormir trabalhando no filme, por um relance pensei que ia acordar e descobrir que ele não existe ou nunca esteve aqui. Pensei que ia descobrir que somos um.
Mas esta experiência não foi fictícia e tampouco mediúnica. Por que ele existe! E agora formamos uma dupla imbatível!

P.S. O filme tem legendas e créditos em inglês porque estamos concorrendo num festival gringo, não é porque eu sou metida ou anti-patriota não, tá? rsrs.



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LEIA TAMBÉM (categoria ego-posts/auto-promoção):

ela, ella e eu
o show não pode parar
alice no país da margarina
virginiana solteira procura
então eu faço aniversário

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Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

A máquina de coca-cola

(Para meu querido amigo Zanelato)



A guerra dos sexos flutuava no restaurante. Ela seguia resoluta e até um pouco brava com seus argumentos bem embasados, a única mulher na mesa, e discursava firme entre um gole de coca-light com gelo e limão e uma beliscada no sashimi com bastante raiz forte, até que ouviu a grande pérola do dia:

E daí que vocês carregam os filhos por nove meses? Acha mesmo que são vocês que geram vida? Você já viu uma máquina de coca-cola?

Ela repousou lentamente o hashi. Estava curiosa.

Então. Se eu coloco uma moeda na máquina e sai uma latinha, de quem é a coca-cola? É da máquina ou é minha?


Ela arregalou os olhos e ficou um minuto em silêncio.


(...)


Depois caiu na gargalhada e parabenizou o amigo pela tese mais escrota do ano.

FIM.



***

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

A mulher da fotografia sem correções de photoshop

Antes de mais nada, gostaria que vocês olhassem para a foto desta mulher. Estou pedindo mesmo uma reflexão sincera.




Cada um é livre para pensar o que quiser, mas gostaria de expressar o meu olhar sobre a fotografia. Eu acho que ela está muito confortável consigo mesma e com as suas formas.

É uma mulher do século passado, que não tinha acesso à cruel indústria da moda, que exigem modelos cada vez mais magras e formas de corpo que muitas vezes ultrapassam a genética das mulheres de uma região ou país específico. No Brasil por exemplo, não é comum uma mulher ser alta, magra e de seios fartos. Aqui, nós somos mais baixas, temos um bumbum mais carnudo e seios menores, este é o padrão brasileiro. E para representar o Brasil no mundo da moda, as agências procuram meninas com descendência européia, lá no sul do país, em cidadezinhas que nunca ouvimos falar do nome...

Esta mulher da foto também não tinha acesso à cruel indústria da medicina, que para "facilitar" a nossa vida e supostamente nos proporcionar um aumento da auto-estima feminina, nos oferecem cirurgias plásticas de todo tipo com parcelas fixas em até 36 vezes no nosso cartão de crédito. Reparem na barriga saliente e nos seios pequenos... alguém aí pensou como ela ficaria com implantes de silicone ou uma lipoaspiração?

Eu não pensei. Acho que ela está muito linda assim, ao natural. E o olhar dela diz tudo isso, ela parece satisfeita consigo mesma. Acredito que o editor da revista playboy discorda severamente dos meus conceitos e que não hesitaria em contratar a melhor equipe para "consertá-la" no photoshop.

Agora eu quero que vocês olhem para esta foto da Mulher Melancia:



Fenomenal!
Sim, a Andressa (quem? ah, a melancia, aquela que requebra o créu na velocidade cinco, aquela que tem uma bunda que parece ter vida própria, uma bunda tão talentosa que agora tenta uma carreira solo!)... então, a Andressa é uma mulher bonita. Gordinha para o padrão em que as mulheres se colocaram hoje, mas tudo bem, com photoshop tudo se resolve. Vocês fazem idéia de quantos homens fantasiam com esta mulher fenomenal, que é fenomenal graças ao poder de edição do software da família creative? E quantas mulheres estão agora na fila de um cirurgião plástico tentando aumentar os seios, a bunda ou extinguir por completo a barriga, baseadas numa imagem que não é real ou motivadas por uma expectativa de sucesso e auto-estima menos real ainda?

Olhem agora uma foto mais real da Mulher Melancia se divertindo na praia...



É irônico perceber que de fato ela é gordinha para o padrão atual. E que 90% dos homens que fantasiaram com a sua foto da playboy também vão achá-la atraente com esses quilinhos a mais, com as celulites, enfim, com a carne. Homem gosta de carne. O desejo do homem é visual e a mulher tenta sempre se adaptar a ele para sentir-se desejada, mas este padrão de magreza exacerbada com certeza não foi criado por um homem. Mas o triste é perceber que estas mulheres- as que estão nas salas de espera dos consultórios, folheando as revistas de moda ou mesmo tentando controlar o movimento do pescoço dos seus maridos na fila do supermercado - estão criando para si mesmas um padrão impossível de se seguir. E desnecessário, muito desnecessário!

Eu, particularmente, não me sinto atraída pela idéia de um dia colocar silicone. Muito menos de entrar na faca para ficar com uma barriga de tábua. Um dia eu estava na praia e topei com uma senhora que tinha idade para ser minha avó, mas exibia uma barriga que eu só tive aos 13 anos! O umbigo estava totalmente fora do lugar, era artificial demais, pra mim foi quase a visão do inferno, um pesadelo. Horroroso!

Não estou aqui querendo ser politicamente correta, quem me conhece bem sabe que inclusive a minha tendência é na maré inversa. Apenas às vezes acredito que eu deva ter sido fabricada numa fôrma diferente, não sei... Eu abomino silicones, barrigas de tábua com o umbigo deslocado e músculos de academia. Lembro dos filmes da pornochanchada ou dos ídolos mesmo dos anos 80, os anos em que se iniciou minha puberdade... aquelas mulheres com seios em forma de suspiro e os homens magros de shortinho... eram muito mais bonitos! Lembro do Antônio Banderas dos filmes B do Almodóvar, tão mais sexy do que o musculoso e hollywoodiano Zorro!

Minha gente, o que aconteceu?

Ok, os ideiais de beleza mudam com o tempo... lembro que quando era adolescente e usava biquini de cortininha eu me sentia feliz com meus seios relativamente pequenos, enquanto as amigas cicciolinas se escondiam com seus seios enormes e marcavam cirurgias plásticas para diminuir o tamanho dos mesmos. Será que elas estão colocando silicone agora? Eu não uso mais cortininha, nem asa delta, mas continuo satisfeita com os meus peitinhos naturais. Sem sacanagem minha gente, o que vão inventar na próxima década? E quem sai lucrando com isso?

A reflexão que eu proponho aqui é que o amor próprio não tem nada a ver com essas imagens que estão no outdoor da avenida mais movimentada da sua cidade. E que as mulheres precisam se amar mais, as guerras precisam acabar no mundo, principalmente a guerra dos sexos, que é uma das mais idiotas do mundo e que não acaba nunca porque, por mais que esteja exposta em todos os cantos, é silenciosa.



Acho que este quadrinho resume bem a guerra dos sexos.
Simplificando é o seguinte: o homem tem um desejo que é visual. A mulher é objeto deste desejo e tem o poder de escolha. Um dia, um menino chegou na puberdade e desejou comer todas as suas amiguinhas, mas nenhuma cedeu. Ele ficou com muita raiva e decidiu se vingar. Quando ficou mais velho, aproveitou da força física para submeter todas as mulheres à sua vontade. Decidiu que elas não iam estudar nem trabalhar, iam ficar em casa submissas cuidando dele. Claro que ele separou algumas para usufruir sexualmente o quanto quisesse, estas até poderiam trabalhar, até porque ele não se importava em pagar pelo sexo. A atitude desse cara gerou um movimento das mulheres, claro. Mas as mulheres que lideraram a revolta, as feministas, elas erraram num ponto crucial: elas queriam ser iguais àquele homem e, portanto, cometeram muitos erros e perderam a força.
Agora a guerra silenciosa se baseia na inveja mútua: o homem tem inveja da mulher porque ela tem algo que ele não pode possuir. E a mulher tem inveja do homem pelas coisas que ele conquistou e das quais ela foi impedida. Então o cara ganha dinheiro para "comprar" a mulher mais bela, que ele vai exibir para os amigos machos e alcançar status. E a mulher vai se transformar na mulher bela que vai atrair o macho mais bem sucedido para si, dominando-o com seus atributos e poder sexual, recebendo do cara tudo o que deseja e que não pôde alcançar sozinha.
Acho que é mais ou menos isso que a gente vê na televisão, quando um jogador de futebol semi-analfabeto, feio de dar dó, porém milionário se casa com uma "modelo-atriz" de corpo exuberante estampado em diversas revistas masculinas.

A pergunta é: o que essas mulheres querem? Por que elas acreditam nesse mundo que os homens criaram? E por que elas não acreditam em si mesmas?

Eu não quero fazer apologia de nada aqui. Mas o blog é meu e eu desabafo o quanto quiser, hehehe. Não posso fazer nada pelas mulheres do mundo, mas posso refletir sobre tudo isso e ser a mulher que sou e gostar muito dela. No fim, eu chego a essa conclusão maravilhosa, de que nenhuma indústria, nenhum homem, nenhuma mulher e nenhum padrão social pode me definir ou qualificar.

É verdade que eu caminho na esteira da academia, mas prefiro andar ao ar livre. É verdade também que adoro tomar chopp e não gosto quando a calça jeans fica apertada, mas não almejo ter a barriga que tive aos 13 anos. Pra quem não sabe, barriga é sinal de maturidade e na mulher, fertilidade, é um lugar lindo, sagrado e flexível, onde podemos acalentar por alguns meses um ser que pode nascer inclusive homem.

As mulheres precisam saber que podem ser lindas e atraentes em qualquer forma ou estilo... e os homens sabem disso melhor que as próprias mulheres, a melancia está aí para confirmar a minha tese. Beleza e sensualidade estão muito além do que os olhos vêem, elas exalam do sentimento, do espírito.

Eu não quero mais viver num mundo que valoriza mais a juventude do que a sabedoria. E como não posso mudar o mundo, mudo a mim mesma. Ôpa, perceberam que neste exato momento eu mudei um pouco o mundo?

Um brinde às mulheres e homens de todos os lugares, de todas as cores, de todas as formas, de todos os cheiros e sabores. E um brinde especial à mulher do século passado que estampa a primeira foto desse post, que sem sombra de dúvida não carrega um centésimo das coisas que aprendi quando descobri que sou uma mulher incrível. Também eu não saberia explicar, agora o que eu consigo é ser.


Este foi mais um capítulo do livro de auto-ajuda de Miss Lexotan.


(P.s. senti até vontade de publicar uma foto do meu peitinho na internet, mas lembrei que a minha avó lê o meu blog... fica para a próxima amigos!)

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Sábado, 29 de Novembro de 2008

Cansei

Cansei de temer o futuro.
Cansei de fechar as cortinas para não ver o sol brilhar do lado de fora.
Cansei de me sentir insegura ao expor o que sinto do lado de dentro.
Cansei de me preocupar em vez de realizar.
Cansei de ficar em casa para fugir da dor de viver.
Cansei de sair sem vontade para agradar os amigos.
Cansei de alguns amigos.
Cansei de dar ouvidos à opinião alheia.
Cansei de expor uma parte da minha vida na internet.
Cansei de censurar uma parte da minha vida que tô afim de expor na internet.
Cansei de sentir que ainda não estou pronta.
Cansei de me torturar para fazer as coisas para as quais sinto que não estou pronta.
Cansei de negar meus talentos.
Cansei da falsa modéstia.
Cansei do falso discurso acerca do impossível.
Cansei da preguiça de existir.
Cansei de todo tipo de medo.
Cansei de me culpar.
Cansei de me colocar em situações desagradáveis.
Cansei da sua caixa postal.
Cansei de criar ilusão.

Cansei de muitas coisas, inclusive do orkut.
E pretendo passar mais tempo por aqui com vocês, não é legal isso?
É o que eu sempre digo... pode não parecer, mas o mundo está em constante evolução.


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Sábado, 22 de Novembro de 2008

O Primeiro Encontro

Tem gente que não transa no primeiro encontro. Eu acho que esta regra é uma regra idiota. Se você está afim, porque não? E tem mais, se o cara só quer te comer, não importa se você vai dar no primeiro ou no décimo primeiro encontro. Ainda assim, ele só vai querer te comer, então quando você resiste a 10 encontros, você só está manipulando o outro. Sim, esse poder pode ser agradável, mas encubar sua energia sexual pode ser prejudicial. E você prefere que o cara desapareça depois do primeiro ou do décimo encontro, onde provavelmente você já está bem mais envolvida?

Eu sempre detestei regras. Acho que elas existem para serem quebradas. A regra da monogamia, por exemplo. Não dá para obrigar ninguém a ser fiel. Você dá a ordem, o outro finge que obedece e você finge que acredita. Por isso sigo sempre o meu coração. Se eu estou afim de dar, eu dou, mesmo que seja o primeiro encontro. E se eu não estou afim de dar, eu não dou, mesmo que seja o décimo primeiro encontro. Sigo a regra do meu próprio desejo e não a dos outros. E sou fiel ao meu sentimento, nem que isso signifique que serei fiel ao meu amante ao transar com o meu marido. Claro que prefiro ter um ou outro e o que faz as pessoas geralmente ter os dois são justamente as regras estúpidas.

Então eu não dou importância ao fato de transar ou não transar no primeiro encontro e acredito que, como tudo na vida, a monogamia é efêmera. Mas uma coisa que eu definitivamente não faço no primeiro encontro é ir ao cinema. O ato de sentar na sala escura para assistir um filme é um momento mágico, único, individual e necessita de muito mais intimidade para se fazer com uma pessoa do que sexo.

Hoje eu vou assistir o filme do Wood Allen sozinha. Depois, talvez eu tome uma cerveja com ele. E se ele tiver sorte, quem sabe...

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